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O GANHA-PÃO DE CADA UM

Reportagem

Era um desses dias em que o sol ia caindo para o poente e quase não tinha fulguração para esquentar a noite. Caminhando pelas ruas à procura de novidades ditadas péla gente que as transitava parei curioso, na praça. Algo diferente chamou-me a atenção:
- Senhoras, senhoritas e senhores! Aproximem-se, por favor.
Um desses tipos falantes, capazes de soltar a voz no meio da multidão apressada, fazia um discurso em torno do qual, formava-se um aglomerado de gente.
- Quero fazer-lhes uma apresentação. Uma pequena mostra daquilo que faço todos os dias neste mundo de Deus.
A princípio, imaginei ser um daqueles adeptos fanatizados por uma religião, mas bem próximo, numa vaga entre os espectadores, pude notar a  diversidade do espetáculo.
- Aqui estão, meu baú, minha tábua e meu cilindro. Meu nome? Raimundo. Meu ganha-pão? Aquilo que me dão. Palmas, sorrisos ou nada não... Conheci muita gente por este mundo afora. Gente boa, gente ruim. Gente que nem a gente e gente que nem vocês... Conheci um homem tão pequenininho, mas tão pequenininho que precisava cuspir do lado senão caía no cuspe e morria afogado...
Era uma rapaz negro, de olhos esbugalhados, sorriso aberto, deixando repercutir na voz meio assobiada, palavras pouco compreensíveis devido às falhas de suas gengivas por onde se podiam contar os poucos dentes arreganhados.
Tal qual um repórter minucioso gravei cada detalhe da sua indumentária: Uma blusa rendada sem gola e sem mangas; uma calça larga de chita estampada de bolinhas, presa por um par de suspensórios do mesmo tecido; uma vasta cabeleira loura contrastando com a cor de sua pele, tipo  do saudoso Muçum, dos Trapalhões.
Enquanto tagarelava, fazia proezas com os pés descalços que se equilibravam num pedaço de tábua rolando sobre um cilindro e este sobre um improvisado caixote de madeira o qual chamava de baú.
Era um pândego a falar aquilo que vinha na cabeça e no coração. As vezes provocava sorrisos e espantos nas ameaças do desequilíbrio ensaiado.
Alguns dos presentes faziam caçoadas, cochichavam pelo comportamento do apresentador, mas já estavam se preocupando em meter a mão no bolso para tirar uma propina, pois sabiam que após a função seriam cobrados.
O rapaz “falava pelos cotovelos”, gesticulava hilariante tal qual uma criança querendo agradar a todos que a admirava.
Fiquei pensativo...
Matutei com meus botões...
Existem ainda, tipos humanos capazes de levar a vida dessa maneira? Devemos crer que essa maneira de viver seja suficiente para o homem realizar seus objetivos e progressos? Ou talvez seja passageiro, como  passageiro são todos os fatos que surgem, crescem, dão “Ibope” e depois se tornam mitos?
Ao me retirar, continuei em busca de outras reportagens, onde as surpresas eram inesperadas e os homens instrumentos de suas vontades.
Júlio Sampietro
Enviado por Júlio Sampietro em 24/04/2006
Código do texto: T144492
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Sobre o autor
Júlio Sampietro
Curitiba - Paraná - Brasil, 73 anos
52 textos (8816 leituras)
1 e-livros (86 leituras)
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Júlio Sampietro