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Os galos da CPA não cantam na madrugada

Óbvio eles não fazerem isso, porque na cadeia quem fala demais perde a língua ou vira “arquivo morto”. Contudo, não era para dizer apenas isso que eu comecei a encher de letras essa página em branco.
Aqui em Charqueadas temos a Colônia Penal Agrícola, que é comumente conhecida no meio carcerário por CPA. Modelo de como tudo que nasceu torto e para não funcionar permanece em atividade por contra-senso e ilógica, a CPA está lá, encrava na zona rural do município, atormentando os lindeiros e servindo de hotel para detentos oriundos da região metropolitana, que nunca plantaram um pé de batata na vida e nem tem a mínima intenção de fazê-lo. Pelo que se vê nos noticiários, quem quiser encontrar maconha, cocaína, trago e armas é só ir pra lá que tem tudo. Pudera, mais de trezentos homens cumprindo pena no local, um lugar aberto e amplo, cheio de “vasos comunicantes” com o mundo que o cerca.
E os galos? Bom, vocês viram recentemente na imprensa que um juiz de direito mandou “prender uns galos na CPA?” Isso mesmo, pois mais jocoso que seja o fato, a Justiça enviou uns galos para ficarem sob a custódia do Estado na CPA. E aí é que começa a nossa história...
- Cocoricó, Bicão. Você viu onde a gente tá?
- Cocoricó, Galantino. Estamos numa tal de CPA.
- Cocoricó, o que é isso? – perguntou Esporão.
- Cocoricó, até onde eu entendi os humanos falando, é uma cadeia, um lugar onde eles mandam ficar os que não podem ter liberdade por um determinado período – falou Crista Larga, o sábio do grupo.
- Cocoricó, que nem a gente, sem liberdade – observou Bicão. Será que eles também os matam para comer? Não vi nenhuma panela gigante aqui.
- Cocoricó, não creio nisso – disse Crista Larga. Humanos não “comem” eles mesmos, a não ser no sentido figurado, sexual e reprodutivo. “Comer” literalmente outro ser humano seria o que eles chamam de canibalismo, o que não é aceito na sociedade deles.
- Cocoricó, mas se eles não se comem, porque eles matam uns aos outros, Crista Larga?
- Cocoricó, Galantino, os seres humanos não são que nem nós, que matam para se alimentar. Eles tem disputas de poder e de interesse de ampla variedade, e se matam por causa disso.
Nisso, os galos ouvem passos. É madrugada, e o galinheiro-prisão está num local sem luz. Os galos começam a cantar, como de costume. “Cocoricó, cocoricó. Uh uh uh uuuuuuuuuu”.
- Pô malandru, qui bosta essis gálu aí, tão chamandu a atenção da guarda.
- É mesmu, u cara não podi neim saí na madruga pra comprá uma canha ou metê uma bronca legau qui elis nos deduram. Vamu “baixá” elis?
- Só mano. “Não era” essis gálu. Eu até vô ti “dá a morta”, e “não é totó”: eu mesmu vô vim aqui amanhã di noiti pra transformá elis im “presuntu” di galinha.
- Issu aí mano, comu elis não “vão pegá a preta”, u lanci é “baixá” elis. Agora vamu qui us guarda podem “si ligá nu bagulhu”, vim aqui i dá “uma ricunha” na genti.
- A genti “baixa” us gálu e us guarda qui si dani cuim u juiz. Eli até vai achá qui foi elis qui mataram us bíchu pra cumê i vai “embrunhá” elis. Ah, ah, ah, ah.
Os detentos se afastam. Galantino pergunta:
- Cocoricó Crista larga, você entendeu o que eles disseram?
- Cocoricó, a linguagem deles é cheia dos que os humanos chamam de gíria, e fica difícil entender se você não faz parte do grupo específico de humanos que as utiliza na comunicação verbal.
- Cocoricó, eu acho que entendi – falou Esporão. Eles não gostaram da gente estar cantando perto deles.
- Cocoricó, e vão nos matar por isso – tremeu Bicão. O que faremos?
- Cocoricó, pela conversa percebemos que eles planejam vir aqui de noite e nos matar, pois ao cantarmos nós atrapalhamos as saídas noturnas deles, fato que parece que eles não querem que os humanos chamados “guardas” percebam – disse Crista Larga.
- Cocoricó, devemos então fechar o bico! – concluiu Esporão, com a concordância de todos.
Na noite seguinte, vieram os presos. Abriram o galinheiro e entraram, mas como os galos faziam silêncio, não os encontraram no meio da escuridão. Desta forma, os galos tiveram uma sobrevida, antes da Justiça determinar a soltura dos mesmos e eles irem dali direto para a panela.
Os galos da CPA não cantam na madrugada. É a lei da cadeia.
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 25/04/2006
Reeditado em 26/04/2006
Código do texto: T144806
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
João Adolfo Guerreiro
Charqueadas - Rio Grande do Sul - Brasil, 48 anos
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João Adolfo Guerreiro

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