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Cuidar de um amor

Para se ter um amor  é necessário saber cuidar...
Mas cuidar desse amor é muito difícil...
Cuidar desse amor é tão difícil como cuidar de uma bolha de sabão flutuando entre raios de sol no Campo chamado São Bento.
(E que Campo é este verde como floresta encantada, que enfeitiçou minha alma e me tornou um eterno prisioneiro de lembranças que viverão dentro de mim, enquanto teimosa insistir pulsar em minhas veias a última gota de sangue de minha existência...).
Cuidar desse amor é pior do que cuidar de uma criança descalça, correndo ao encontro de um castelo habitado por monstros, princesas, fadas, tubarões e formigas e após longa luta se atirar ao encontro de um precipício e cair em meu colo e após contagem de mortos e feridos, só meu coração ficou perdido.
Cuidar desse amor é a mesma sensação que eu tive uma noite, em teu quarto antigo, após ter te amado com todo prazer de minha alma e sentir, o rio da vida ou o rio da morte (quem sabe?), escorrendo por tuas coxas, passando uma sensação de perda, como uma enchente em que desolado me vi olhando o  rio de sangue, rubro como o furor de minha face, levando a filha que não nasceu e portanto não serei capaz de ouvir entre vários gritos no Campo, no Campo verde dos meus sonhos,  a palavra Pai.
Cuidar desse amor é olhá-lo sem poder tocar, simplesmente me embriagar com seu colorido, flutuando entre nuvens de sorrisos de crianças.
Cuidar desse amor é saber que um dia ele morrerá e não querer perdê-lo como a bolha de sabão tocada na palma da mão,  explodindo com um leve toque úmido, sem deixar vestígios, como se fosse um sonho que nem sonhado foi.
Cuidar desse amor é olhar os olhos de quem se ama e ver neles um sorriso de mulher.
Cuidar desse amor é encontrar um lugar aconchegante e querer viver nele até os últimos instantes de minha vida.
Cuidar desse amor é querer rever o primeiro olhar dado quando a vi sentada, cansada de me esperar num restaurante, mas compensada a longa espera com um doce beijo de sabor de infância.
Cuidar desse amor é reviver o primeiro toque de mãos dado, como uma leve  e fugaz explosão.
Cuidar desse amor é reviver sonhos não realizados, como um homem no leito, esperando o instante derradeiro da morte, perguntando se a vida valeu a pena ou não, ou pior, se condenando a eterna dor de não saber cuidar de sua flor e nem  reconhecer, seu próprio olhar, no espelho nesse derradeiro instante.
Cuidar desse amor é saber que não o terei mais, é saber que não é meu, é simplesmente sentir sua presença sem desejar manter preso em uma redoma, como a flor do pequeno príncipe que o deixa partir para não perdê-lo, é me sentir cativado e responsável pela tristeza que sentirei ao rever o nome de uma Cidade;
(E que Cidade é esta que possui o seu perfume, tem o seu nome e suas ruas estreitas me levam ao encontro de um passado ou quem sabe de um futuro, dando-me lembranças e dividindo minha vida em antes ou depois dessa Cidade...Dos caminhos percorridos contigo, dos restaurantes e caminhadas ao entardecer, do museu contemporâneo nunca conhecido mas tão íntimo de mim, do parque da Cidade com sua vista deslumbrante e dos fogos de um final de ano onde os sonhos ficaram adormecidos).
Cuidar desse amor é chamar um Rio de Bonito, é sentir ciúmes desse Rio, ou melhor, ciúmes das pessoas que navegam nesse Rio, onde meu barco ficou a deriva esperando o instante de atracar, mas sem perceber que as águas não param e que a beleza não é somente minha e que o barco já estava sem rumo.
Cuidar desse amor é amar uma Cidade que nunca conheci, uma Cidade que somente passei ao longe, cortando caminhos, para chegar na Cidade Imperial, mas sem saber que naquela tarde triste e chuvosa, senti que aquela Cidade seria ,um dia , especial em minha vida.
Cuidar desse amor é não te perder, é continuarmos nem que seja como amigos, é saber de você, é reviver uma tarde naquele Campo, tendo a magia do tempo que nunca tivemos, tendo as horas ao nosso favor, sentindo a fragrância do seu hálito sem medo de terminar ou sem medo de me tornar um eterno prisioneiro.
Cuidar desse amor, é cuidar de você, é cuidar de mim...
André Hemerly
Enviado por André Hemerly em 25/04/2006
Reeditado em 25/04/2006
Código do texto: T144920

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Sobre o autor
André Hemerly
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil
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