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CRÔNICA DE UM CÍNICO.





A chave do meu destino perdeu-se na trajetória percorrida, nos caminhos, nos tropeços, nas botas que esmagaram minha inocência. Tão crédulo de tudo e de todos desde que me lembro, tão puro e desprovido de maldade como toda criança  - se é que deixei de sê-lo -, que carreguei por muitos anos esta ignorância de tudo que se refere à discriminação, preconceito,  inveja, despeito. Mesmo nos anos de chumbo nos quais amarguei a descoberta da vida como ela é, tentei de todas as formas preservar a inspiração do meu eu solidário, solitário e compreensivo. Tanto por isso paguei. Tanto por isto sofri. Tanto por isto me deixei humilhar, Tanto por isto chorei. Pediram-me para orar, orei. Pediram-me para obedecer, obedeci. Pediram-me para crescer, cresci. Aí então ficou difícil. Como conviver neste mundo adulto com o coração infantil que carregava? A resposta foi surgindo devagar com meus primeiros deslizes, todos justificáveis perante minha consciência. Não magoar o outro era mais importante que me deixar corromper. A busca pelo ter foi se tornando um objetivo. Possuindo pode-se repartir. Amar é mais fácil com o vil metal. Ou seria a inspiração para ser amado? De repente amar passou a ser menos importante do que ser amado, elogiado, compreendido e aplaudido. Ser reconhecido era uma forma de prestar o bem. O reconhecimento o exemplo de sucesso também se tornaram caridade. Mais dinheiro, mais sucesso. Enfim tinha realizado na prática meus valores primeiros. Tudo e todos em minha volta me pareciam alegres e felizes. Eu os protegia com o poder, todos me amavam. Por outro lado já não sentia o peito em fogo a derramar compaixão.Não me comovia mais com crianças pedintes. Inconvenientes as pessoas que vivem de precisar.Também teria o direito de cometer minhas extravagâncias. Porque da crítica?  Afinal fui desprovido de maldade durante toda a vida . Nasci para compreender e lutar pela igualdade de oportunidades de todas as pessoas. Fiz o que foi possível. Agora preciso pensar em mim. Acho que finalmente estou me tornando adulto.
Humberto Bley Menezes
Enviado por Humberto Bley Menezes em 25/04/2006
Código do texto: T145147
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Sobre o autor
Humberto Bley Menezes
Curitiba - Paraná - Brasil
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