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Uma cachorrinha e um sonho lotérico


Desci do carro numa fazenda no interior do Mato Grosso e os cachorros vieram correndo em minha direção. Não precisava ter medo, de longe sabia que eram amistosos. Mais que isso, estavam loucos de vontade de nos ter como amigos.

Eram dois, um macho e uma fêmea. O macho saltitava ao redor, com vontade de pular em nossas pernas, vontade domada pelo medo de um castigo. A fêmea gania, abaixa-se, balançava com imensa força seu rabo fino e comprido. Para não abocanhar a gente na demonstração de alegria, trazia na boca um papel. Mais que um papel, um volante de loteria. Com jeito, pedi-lhe que me desse o papel. Ela deu. Imediatamente, pegou do chão uma folha seca de uma árvore qualquer e ficou com ela na boca. Treino, medo ou simples mania? Nunca saberei.

Esperançoso, olhei o volante.

Vazio.

Nenhum número marcado.

Mas, aqui e ali, manchas de sujeira. Com boa vontade e alguma adivinhação, poderiam passar por indicações.

Bobagem da grossa? Quem sabe? Quem é que conhece os caminhos e atalhos com que a sorte nos presenteia?

Dobrei o volante e guardei-o no bolso. Abaixei-me e acariciei a cachorrinha, nessa altura mais que uma nova amiga, uma mensageira da boa fortuna. Ué, por que não? Tudo, nesse mundo, é possível. Além de carinhos em sua cabeça, como um prêmio extra, arranquei alguns carrapatos já graúdos, cheios de sangue, pequenas azeitonas escuras se destacando contra sua pelagem branca. Bonzinho, fiz o mesmo, porém um pouco menos, no macho. Só depois disso fui atrás do meu pessoal que já estava bem à frente, preocupados em fazer o trabalho dentro do prazo, gravando imagens para uso futuro, enquanto eu me detinha em festinhas para cachorros e devaneios com prêmios de loterias.

Agora, passados vários dias, já joguei na loteria, tentando adivinhar se as marcas de sujeira estavam no 39 ou no 22. E sonhei, claro. Nada ganhei. Acho que a Dona Sorte esqueceu de marcar os números ou a cachorrinha pegou o volante errado. Não faz mal. Naquele momento nós nos divertimos e vivemos alguns bons minutos, os dois cachorrinhos e eu. Não é pouca coisa.
Emerson Gonçalves
Enviado por Emerson Gonçalves em 25/04/2006
Código do texto: T145149
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Sobre o autor
Emerson Gonçalves
Carapicuiba - São Paulo - Brasil, 62 anos
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