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Meu Filho Vai ser Jogador

Existem coisas de tão claras, que nos torna obtusos e inadiplentes, diante dos fatos. Está saindo nos jornais de hoje que o notável Ronaldinho acumulou, só na última temporada de futebol, cerca de 23 milhões de euros. Trocados em miúdos, ele ganha por dia R$ 165 mil reais.

Ele realmente é um jogador extraordinário e faz jogadas mirabolantes. Lutou muito para chegar ao ponto que chegou. O mérito e o esforço é só dele. Ele merece. Tem a cabeça no lugar e não faz  bobagem com o dinheiro e nem badala pelas capas de revistas fúteis,igual CARAS  e outras, entre  festas intermináveis,  na louca rotina de  encontros, banquetes lascivos, sem cair no vazio interior que leva muitos craques a uma vida curta e solúvel entre mulheres formidáveis que o assediam dia e noite. Vide Maradona.

Tudo isso é Ronaldinho. Um gigante que merece o dinheiro que ganha.

Mas, nisso há um contra-senso que me pertuba. Milhares de jovens brasileiros que lutam para sobreviver, trabalhando e estudando. Alcançando uma Faculdade. Estudando sem parar, varando noites com livros e mais livros, tentando sugar um pouco de sabedoria que vai lhe valer uma profissão. E, depois, da família exausta de despesas colegiais e na faculdade, chega o momento de enfrentar a vida.

E vêm o pior, a maioria é colocada num canto. O Brasil  não absorve esses intelectuais, que dedicaram suas vidas à exaustão do estudo, num sacrifício, que só quem passou sabe como é. Não existe campo de trabalho para esses jovens, que acabam alijados de sua profissão, para outro meio de vida, que lhe dê sustento para ele e sua família. O governo não abre frente de trabalho, deputados e senadores, amorfos, só se preocupam  com a corrupção e o devaneio inútil de não ser nada diante da vida.

Isso que nos preocupa.

De que vale estudar a vida inteira e depois, sem história, viver no sacrifício, nas mãos de políticos derivados de  malversão de valores?

De que vale o sacrifício de uma família para formar um filho? De que vale o filho estudar meia-vida e ganhar migalhas?

Há exceções notaveis, mas são poucas. Alguns, e são poucos, conseguem alguma coisa na vida.

Mas nada comparável à fortuna  que acumulam nos pés dos jogadores de futebol.

Isso é o preocupante. Pra que estudar tanto? De que vale o sacrifício?

O exemplo vêm de cima.

Só quero que meu filho estude o mínimo possível. Depois vou colocá-lo numa escolinha de futebol e rezar para que tudo dê certo e ele se torne um astro.

Esqueçam os livros ! Esqueçam noites em claro de estudo. nada disso. Se você quiser ser alguém vá aprendar a jogar bola e torçer para ir parar no exterior. Nem precisa ser igual à Ronaldinho. Ser mediano já está bom.

Minha cozinheira é muito pobre. Ajudo ela como posso, dentro de minhas possibilidades. Ela têm três filhos. Tirou os três da escola e colocou-os em outra escola: a do futebol. Eles passam o dia inteiro treinando, e  têm alimentação e roupa garantidos. Ela está esperançosa. O técnico já disse pra ela que um de seus filhos tem talento e poderá ir treinar no ano que vem, num time grande.

Esqueçam os livros. Pode dar sabedoria, mas não mata sua fome e de sua família.

No país do Carnaval, de um multidão de feriados, da caipirinha, do futebol diário, eu quero mesmo ser burro ou alienado, mas quero  ganhar R$ 165 mil reais por dia.
José Kappel
Enviado por José Kappel em 26/04/2006
Código do texto: T145482
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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel