Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

O SANDUÍCHE ODONTOLÓGICO

A Escola Estadual Ocridalina Madureira é um estabelecimento de ensino fundamental com 14 salas de aulas. Nela estão matriculados cerca de 1.400 alunos. Situa-se à rua Lopes Trovão, no bairro de Massaranduba, nas proximidades do bairro de Vila Rui Barbosa. O colégio fora fundado pela assistente social e professora Ocridalina Madureira. A comunidade de Massaranduba, reconhecendo o mérito da educadora, e desejando homenageá-la por seus feitos à causa da educação naquele local, com justa razão, colocou  o seu nome no estabelecimento.
    No final da década de 30, a jovem Ocridalina trabalhava como assistente social no SESI, no setor de serviços do antigo INPS. Como católica fervorosa, servia voluntariamente a um pequeno grupo de crianças carentes, na antiga igreja de São Jorge, pertencente à Companhia de Jesus - Ordem dos jesuítas, situada na Rua Duarte da Costa, no Jardim Cruzeiro. Dia-a-dia, a procura de alunos carentes para fazer parte desse grupo era grande. Então, a jovem resolveu procurar um espaço maior para acomodar essas crianças.
    No meado dos anos 40, a professora, imbuída pelo ideal de educar crianças carentes dos bairros de Massaranduba e de Jardim Cruzeiro, principalmente pela falta  de escolas nesses locais, decidiu juntar-se  a um grupo de pessoas da comunidade. Elas apossaram-se de uma área baldia, onde hoje se encontra a Escola Estadual Ocridalina Madureira. Era um local de maré vazante, de lama preta com cheiro de maresia. Verificava-se também a presença de caranguejos e de  alguns crustáceos. Ao redor do terreno,  inúmeras  palafitas aumentavam de número dia-a-dia.
    Nessa área baldia e lamacenta, foi feita uma cerca contornando o terreno para  que não fosse ocupada com moradia de invasores e, mais tarde, ficasse lotada. Como na comunidade não existia escola pública, a área foi entulhada pela comunidade e construiu-se no local um galpão de madeirite, onde a jovem educadora começou a ensinar as primeiras letras a um pequeno grupo de crianças carentes. Eram crianças desprovidas de escolas que deveria ser de responsabilidade das autoridades dos poderes públicos da capital baiana.
    A Escola Ocridalina nasceu pobre, com paredes de madeirite, mobiliário de bancos rústicos e alguns caixotes que serviam de assentos para os alunos. Mas foi fruto do amor de um sonho de uma jovem assistente social pelo ideal de educar. Sonhar é dar asas aos espíritos; é contemplar virtudes; é projetar realizações. Por isso, muitas vezes, por meio dos sonhos tornamo-nos criativos e realizados. E foi com esse sonho criativo que nasceu a Escola Ocridalina Madureira.
    Nos primeiros dias de funcionamento, não tinha nome próprio; ficara conhecida apenas na comunidade como "a banca da professora".
Era uma banca totalmente carente, com instalações inadequadas. No entanto, os alunos aprendiam com facilidade. Tratavam-se como irmãos e eram humildes. Eles consideravam a jovem professora como sua mãe. Apesar de não haver conforto adequado, os estudantes sentiam-se alegres e felizes, porque fora uma escola construída com amor. Nela se praticava o amor, e eram ensinados os valores essenciais à construção do caráter humano.
   Nos primeiros meses, "a banca da professora" ganhou um nome indicado pela comunidade: Escola São Jorge, em homenagem às crianças da igreja São Jorge e ao padroeiro do bairro do Jardim Cruzeiro.
   A pequena escola vivia superlotada. As pessoas procuravam,   insistentemente, para matricularem os filhos; e um dos motivos era a fama do bom ensino. O outro, a carência de escolas na região. Como as vagas eram escassas devido à grande demanda, a comunidade decidiu, em mutirão, aumentar a área do terreno, com o objetivo de ampliar as instalações.
   Devido a falta de recursos para que fosse aumentada a Escola São Jorge, o pároco jesuíta da época, responsável pelos trabalhos catequéticos dos dois bairros, em comissão com algumas pessoas, resolveu solicitar ajuda ao Governador da Bahia, Dr. Octávio Mangabeira. O governante recebeu o pároco em comissão e, de imediato, tomou as providências necessárias.
    As instalações feitas pelo governo do estado foram suficientes para atender as duas comunidades, e o estabelecimento ganhou uma nova denominação, passando a ser chamado de Escola Comunitária São Jorge. A fundadora foi nomeada pelo Governador para o cargo de diretora.
    Na gestão de Octávio Mangabeira, a Escola Comunitária São Jorge tornou-se uma referência educacional de excelência do curso primário, nos bairros de Massaranduba e de Vila Rui Barbosa (ou Jardim Cruzeiro). As normalistas - estudantes do antigo curso de professor primário - que residiam nos bairros do Uruguai, Jardim Cruzeiro, Massaranduba, Roma e Boa Viagem, costumavam estudar no ICEIA  (Instituto Cultural de Educação Isaías Alves), no Barbalho; na Ex-Escola Normal Dom Bosco, na Rua Barão de Cotegipe, próximo ao bairro da Calçada; no Ex-Educandário Duarte da Costa, situado no Jardim Cruzeiro; ou ainda na Escola Estadual Costa e Silva, localizada no Largo da Madragoa, no bairro da Ribeira. Contudo, preferiam cumprir seus estágios na Escola Comunitária São Jorge, por ser o ensino bastante conceituado.
    No governo estadual de Antônio Carlos Magalhães, a pedido da comunidade, o patrimônio da escola passou para o domínio do estado e sofreu outra troca de nome: Escola Estadual Ocridalina Madureira, conforme Portaria de Autorização 1873, publicada no Diário Oficial do Estado de 14 de maio de 1974.
    No final dos anos 90, foi implantado o Ensino Fundamental integral nos três turnos. Em 2004, deixaram de funcionar as séries iniciais, por força da municipalização do Ensino Fundamental (Lei 9394/96).
    No ano 2000, fui designado pelo Secretário de Educação do Estado da Bahia para lecionar a disciplina Geografia nessa Escola. Na primeira semana de trabalho, aconteceu um caso de repercussão momentânea com uma das minhas alunas de 5ª série, no turno matutino. Ela se chamava Caristina.
    Caristina era uma garota magrinha, morena, inquieta e falava ligeiro. Tinha o nariz afilado e os cabelos compridos, pretos e encaracolados. Era uma menina com seus 12 anos e estatura comum para sua idade. Os seus colegas chamavam-na de Cari.
    Quando se aproximava a hora da merenda, justamente às dez horas, Caristina ficava inquieta na sala de aula. Comumente resmungava no final da terceira aula:
    - Pôxa! Quê aula demorada! Está demorando a bater. Estou com fome! Esta aula tá ficando chata. Ih, a merenda de hoje é cachorro-quente! Que delícia!
    Quando soava a sirene, era a primeira a sair da sala de aula. Dirigia-se à cantina para ser uma das primeiras a receber o lanche. E, ao recebê-lo, comia em pouco tempo; e tornava a entrar no final da fila para receber um outro. Recebia-o e comia novamente. Às vezes, as funcionárias responsáveis pela distribuição da merenda alegavam que ela já tinha lanchado. No entanto, ela batia pé firme, dizendo que não. Era seu costume lanchar duas ou três vezes e, para isso fazia todo tipo de artimanha.
    Quando se anunciava que o lanche seria cachorro-quente, os estudantes ficavam eufóricos. Era um corre-corre incontrolável em direção  à cantina. Aconteceu em uma sexta-feira, no final desse lanche, o boato de que Caristina e alguns colegas haviam encontrado alguns dentes no sanduíche. Quando o rumou espalhou-se, vários alunos jogaram pão no chão; outros, nas paredes, e alguns o atiravam um no outro. Muitos gritavam:
    - Ah! Ele comeu sanduíche odontológico! Êta! O pão está recheado com dentes!
    Caristina foi até a diretoria da escola, com um dente encravado no pedaço do sanduíche, seguida por alguns alunos. Com a voz estridente e exibindo o pedaço de pão, disse:
    - Dona diretora, eu estava comendo o sanduíche e encontrei este dente enfiado no pão. Tá vendo, diretora? Que nojo! Estou com vontade de vomitar. O que a senhora me diz disso?!  Eu vou levar pra minha mãe ver; viu?
    A diretora, bastante surpresa e preocupada, franziu a testa, com a voz presa de língua e  dentes, disse:
    - É minha filha, estou vendo. Você pode deixar este pedaço de pão com o dente em minhas mãos para a gente tomar as providências?
    - Sim, diretora! Ah, diretora... Tem mais gente que achou. Não fui só eu que achei.  Os pães tão cheios de dentes! Viu?
    - Bem, minha filha, caso haja mais gente que achou,  que venha falar comigo. Até agora, a única pessoa que apareceu aqui para falar comigo foi você. Agora, minha filha, vá para a sua sala, o seu professor já está lá a esperando. Não se preocupe que eu lhe garanto que vou tomar as providencias.
   A gestora, bastante preocupada, com a voz em bom tom, chamou a vice-diretora:
 - Tereza, por favor, venha até aqui. Eu vou lhe mostrar uma coisa.
Caristina me disse que encontrou este pedaço de pão com este dente encravado. Está vendo? Isso é muito grave! Já pensou se chegar ao conhecimento da saúde pública? Olhe que eu tenho muito cuidado e zelo em escolher os fornecedores para a merenda escolar. Tenho muita preocupação com a higiene na preparação do lanche dos meninos. Ah, meu Deus! Fiscalizo todos os dias a preparação dessa merenda, e acontece uma coisa dessas! Deus nos ajude que apareça o fornecedor, para eu falar com ele! Deus é bom! Ele não abandona seus filhos nas maiores necessidades. Eu sei que esse fornecedor vai aparecer.  Meu Deus, como acontecem essas coisas?!
   Então, ela pegou  um papelzinho branco  e enrolou o pedaço de pão com o dente encravado, dizendo:
   - Tereza, guarde este pedaço de pão com o dente em sua gaveta, para quando aparecer o fornecedor, e eu for conversar com ele.
   - Está certo, Maria. Eu vou guardar em minha gaveta.
    Passado vinte e cinco minutos, por milagre, apareceu o fornecedor de pão na diretoria.   A diretora, totalmente surpresa e confusa com o aparecimento repentino do homem, disse:
   - Senhor Anastácio, eu estava mesmo precisando falar com o senhor. Parece que foi Deus que mandou o senhor vir aqui. Como Deus é bom! Sr. Anastácio, aconteceu uma coisa muito grave com o pão que o senhor nos fornece. Uma de nossas alunas encontrou um dente no pão! Eu dei à vice-diretora para guardar, enrolado num papelzinho para lhe mostrar quando o senhor aparecesse.
   O senhor Anastácio com aspecto de grande preocupação passou a mão alisando a sua cabeleireira e com um tom de voz serena, falou:
- Diretora, é impossível que a aluna tenha encontrado algum dente no pão. Trabalho nessa panificadora há mais de 16 anos e nunca aconteceu um incidente deste. Essa panificadora fornece pão há 20 anos para quase todos os hospitais de Salvador, para uma infinidade de creches, asilos, orfanatos, corporações militares e alguns órgãos do governo. Os nossos produtos são preparados com máxima higiene e reconhecido pelos órgãos públicos como de qualidade. Os nossos funcionários usam trajes apropriados na manipulação dos produtos. O nosso maquinário é o mais moderno da praça. Todas as máquinas são importadas! Caso a senhora queira visitar e verificar as nossas instalações, eu terei o imenso prazer em levá-la de carro agora mesmo. A senhora pode me fazer a gentileza de me deixar ver o pedaço de pão com o dente que a aluna achou?
   Ansiosa e preocupada, a gestora escolar respondeu:
   - Pois não, pois não, seu Anastácio. Eu vou mostrar ao senhor.
   Como a saída da diretoria era porta com a porta da vice-diretoria, no sentido lateral, a diretora, em voz de bom tom, falou:
   - Tereza, traga-me o pedaço de pão deixado por Caristina!
   A vice-diretora trouxe-o e passou às mãos do Sr. Anastácio. O fornecedor, franzindo a testa, segurou o dente com o polegar e o dedo indicador, dizendo:
   - Ah, diretora! Estou tranqüilo! Este dente é alvinho, bonitinho, bem-feitinho. Eu lhe afirmo, com muita tranqüilidade, que não é de nenhum funcionário da nossa panificadora. Eu desconfio que este dente seja de criança! Por favor, a senhora pode mandar chamar a aluna?
   - Pois não, senhor Anastácio. Agora mesmo!
   A vice-diretora tratou de mandar chamar a Caristina. Dentro de poucos minutos, aparecia ela, transmitindo uma ingenuidade profunda. Sorrindo, falou:
   - Foi a senhora diretora que mandou me chamar?
   - Sim, minha filha.
   Naquele momento em que Caristina estava sorridente, o senhor Anastácio apontando para a boca da menina e sentenciou:
   - Minha filha, este dente bonitinho não é dessa janelinha da sua dentadura alvinha?
   - Ah, ah... É, tá faltando! Eu não notei. É meu dente que estava mole! Eu nem senti quando ele saiu. É meu mesmo. É; diretora! Este dente é meu!
   A diretora, demonstrando uma calma profunda, sorriu. Com muita tranquilidade, pegou um pedacinho de papel branco e enrolou o dente, dizendo para a menina:
   - Minha filha, tome o seu dentinho de leite e leve para mostrar à sua mãe.
   A menina, com o sorriso desajeitado e o olhar atento, recebeu o seu dente com bastante expectativa, guardou-o no bolso da sua calça e disse:
   - Oxente, diretora! Meu dente não é de leite. Ele é duro e é de osso mesmo, viu?
                                                                 

( Este conto encontra-se publicado na Coletânea Textos Seletos, Poesias, Contos e Crônicas - Volume 1 - págs 64 a 71 - Edição: 2008. Editora: PENSATA)




   
EVERALDO CERQUEIRA
Enviado por EVERALDO CERQUEIRA em 26/04/2006
Reeditado em 08/09/2009
Código do texto: T145584
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
EVERALDO CERQUEIRA
Salvador - Bahia - Brasil
91 textos (79068 leituras)
1 e-livros (185 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 07:53)
EVERALDO CERQUEIRA