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ÁGUAS PASSADAS, SAUDADE.

Saudade.
     Para começar prometo não repetir que esta palavra só existe em português. Por esse motivo vou substituí-la por, não sei, talvez,  nostalgia?  Não quero ouvir tangos, também não ouvirei Cazuza ou Zéca. Quem sabe para embalar meu teclado possa sentir o Noturno No 20 de Chopin ou a Ária em G de Bach.. Parecem mais apropriadas para  música de fundo, não do texto, mas da inspiração para discorrer sobre a volúpia que insiste em movimentar meus dedos pelas teclas, marcando na tela palavras que não sei de onde vem, nem sei para que servem, a não ser para aliviar o desejo de materializar momentos vividos e sentidos que corroem minha quietude.
      Seria os folguedos de criança a razão desta nostalgia?  Seriam os mimos os beijos e abraços dos primeiros anos? As descobertas, o sentimento de imortalidade quando se pensava que tudo era possível, da primeira paixão, do primeiro desengano?  Ou seria o passeio solitário pelas areias desertas desta época do ano em que o mesmo balneário da minha infância permanece vazio e frio , visto ser inverno , e de repente estar no mesmo lugar em que muitas vezes freqüentei por anos seguidos. Desde a infância percebo que  as ondas comovidas guardavam com cuidado cada passagem do  meu passado nas finas camadas de areia, escondendo até agora o sentido da minha vida. Hoje decifrando meu coração, lavando sutilmente  da areia camadas finas que vão revelando ano a  ano  minha existência as ondas devolvem à minha lembrança passagens esquecidas na brutalidade da vida.  “Viva o Guga” (meu neto)  “Viva a Záza” (minha neta) .” O Guga é muito Esperto”. “A Záza é minha princesa querida”.Muitos corações vão aparecendo com a palavra Zéte. Uma onda maior limpa a areia surgindo um belo castelo  e o nome  da razão de tudo, escrito nas janelinhas: Zéte na torre maior, Valéria ,Fabio e Felipe,nas muralhas que protegiam  meus sonhos, meu existir.
     O vento... O vento sopra sem cessar no fim de tarde quase noite: o castelo desaparece e o passado mais remoto vai surgindo. De quem seria esta letrinha  infantil?   “ Papai meu herói, eu te amo”, ” Mamãe eu te adoro”. Mais vento, mais areia retirada, mais recordações mais constatações. Aparecem  algumas pegadas. As marcas das muletas do meu pai, os passos curtinhos de minha mãe e por incrível que pareça  pezinhos marcados levemente na areia; os meus e de meus  três mais jovens irmãos. Modestamente mais crianças felizes amparadas a caminhar ao encontro de seus destinos.
Seria isto nostalgia?
Não, isto é saudade.
   
Humberto Bley Menezes
Enviado por Humberto Bley Menezes em 27/04/2006
Reeditado em 28/05/2006
Código do texto: T146480
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Sobre o autor
Humberto Bley Menezes
Curitiba - Paraná - Brasil
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