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Lá Pelos Campos Santos

1) Costumo meditar nos campos santos. Nada de lúgubre ou fanhoso, flácido em sensibilidade. Apenas, nos cemitérios, as coisas são como parecem ser. Ou seja, não existe mais nada ao lado de cruzes e velas. Nos monturos de cimentos me parecem que vozes augustas morrem tépidas ao som da noite..

Às vezes penso como será as noites ali. Um plá-plá-plá infindável de mortos falando dos vivos, ou se encontrando,ou mordazmente criticando o que não mais vêem ou sentem. Deve ser um baforido dos diabos o que acontece por lá e a gente não percebe.

E nos meus costumes afoitos imagino coisa impossíveis, que há uma mínima possibilidade de existir em nossa imaginação e, quem sabe, um dia, com o progressibidade das coisas, eles apareçam por encanto?


Penso na Maria que amou João. Maria está sob meus pés, enquanto João está lá cem metros à frente.Mas quem matou João por amor de Maria dorme com Antônia, quase ao meu lado.


O mesmo que montou guarda acaricia de gentilezas com aquele que o mandou montar a guarda. Há um retrato apaziguado de 1918. Lá estão Antônio e Suzana. Mais Antônio não amava mais Suzana, mas sim Renata. E ela, lá no fim, dorme com sua dor enquanto Antônio inquieto, percorre inutilmente as lápides.


O mesmo que hospedou dorme agora com o hospedeiro. Quem deu esmolas dorme ao lado de que as pediu. Lugar de estranhas histórias; paradas que nunca terão mais fim.

Se as noites de lá falassem, todos ouviriam José , de tamancão, à procura de Maria e Roberta,com grandes camisolas de antão, atrás de Antônio.


Mas para nós há uma quietude que incomoda, pairando sobre tudo aquilo!


2) Que me chegue toda a verdade. Sem erros, mas me chegue. Mas se alguém puder, me esconda algo, que guarde para si o grave. Não há homem na terra preparado para receber tal atalho de verdades.


"Não sou de plumas", dizia meu antagônico avô em 1900, enquanto aliciava escravas para importá-las para dentro de sei mesmo. "Não de plumas e muito menos de ferro", dizia ele, enquanto contava vinténs para dar ao mercador.

Comprava-as, como se compra carne de sol.


Agora, volúvel, meu avô, peço paz, e que não me contem histórias assim. Que me poupem! Que me tragam seus odores, mas me poupem de seus permanentes anseios.


Já na minha idade , acredito no impossível e em grandes ilusões. Manco,mas não perco a pose.De sabedoria, eu não entendo, mas sei igual a meu avô, quando elas vem,vem para ficar.

Me encharcam de puro vinho eslavo e de quinquilharias,e acabam tontos, estrupados."


3) O tempo foi rápido, vesgo e sem entender nada do que fazia. Me surpreendeu sua franqueza ao dizer que recebia ordens e nem dono era de si mesmo.


E assim fez. Como uma brisa suave foi tratando de levar minhas coisa rapidamente. Sem ao mesmo avisar - gritaria à bombordo: "Chegou a hora" - e lá foi ele, foi lentamente ficando dono das coisas que viveram comigo.


Primeiro, adormeceu um pouco a mão direita. Como um discreto cavalheiro, fez por bem me atormentar com um sopro, e criar rusgas e manchas, sem nome, em meu rosto.


Daquele dia em diante passei a usar bengalas e percorria as bordas do regato, onde estavam minha flores, mas, de terrível aparência: meio manco,com os dedos paralisados e aquelas manchas de certa idade.


Não satisfeito, levou meu avô, o pai sem nome e a velha mãe. De regra, tirou de mim, tios, primos e amigos. Não satisfeito me levou o cão vadio, mas valente; como um Humprey Bogart.


O sábio tempo. Depois de carregar Bill Cincinatti - o meu cão -, tratou de carregar o Panda, velho e doce gato, quebrador de louças e rasgador de linho importado.


Ele só me diz: Sou mandado, nem de mim sou dono.
E levou meu alfaiate, meu calceteiro, alguns bons inimigos, o padre da esquina, e minha prostituta de cinco quarteirões.


E ao tempo perguntei: Chega agora? Por mais quanto tempo?


-Sim agora basta - disse ele afogueado de alegria. Mas breve volto, no vento mais forte.
E agora eu digo: Cuidado vocês de manga-curta, cuidado com a pança do vento. Ela vem gorda e faminta. De mangaba tem tudo, mas vive de traições.

Venho,um dia e levo todos" - Irei pro campo santo tagalerar nas noites infindáveis?


4) Roda a saia de azul, faz dela hortelã. Toca as mãos no rosto como se fosse uma santa - brando-jasmim. E digo: faz a roda Camomila, a roda das crianças. Morango silvestre, com blusa de cheiro, velha, de empório. Mas faz a roda.


Modeia Camomila, enquanto resta tempo pra chegar. Sai do pomar e carrega maçãs entre as pernas e especiarias nos lábios.


Agora sou da cor de laranja-lima. Faz tempo, Camomila, faz tempo que tudo era roda de criança.
Rodeia Camomila, pois o tempo agora me bate e daquela época sobrou uma garrafa pura de aguardente, uma lasca na carne e quando ela sumiu pela porta, vento afora, e nunca mais voltou eu apenas disse: "morri também e meus pecados lá se foram com a doce e infantil Camomila !


5) De longe, alvíssaras, moças se penteiam ao rebordo do sol, na cálida manhã. Eu, de chinelas e ainda com rumores de uma noite sem conversas, corrijo o corpo no sopro de vento que me guarda de aromas e me empertigam os sentidos.


Sei que, se algumas coisas se vão, só por instantes, jamais voltam. Não há retorno para as coisas sagradas ou profanas. O mínimo que posso fazer é, do meu patamar, sentir o embriago dos aromas que exalam das formosuras de cabelos.

Mas outras, talvez mais sábias, tratam de tomar seu lugar.

E veio a saudade calejada e me arruinou. Tomo um trago que faz bem e me recupera. Sei que deste vento já não me larga mais, e vou um dia com ele para os cemitério dos falantes

. E não conto a ninguém porque só me habitam fantasmas. E se a porta só se abre para o vazio e me priva dos degraus? Sozinho eu vou!


De longe sonho. De longe vejo algazarras juvenis se tropeçando na minha idade, como pássaros indefesos. Sei, porque não sei...não sei porque não quero ver e se algum dia descobrir guardo para mim estes pecados - segredos mortais que um dia só habitarão a eternidade!"
José Kappel
Enviado por José Kappel em 28/04/2006
Código do texto: T146639
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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel