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DO TECLADO A SAPATILHA


DO TECLADO A SAPATILHA
 
Quando a música traz recordação dos sonhos que não realizamos, perguntamos:
Por que será?
Na época dessa música, eu ainda muito criança, no interior de Minas Gerais, ainda brincava de mãe da rua, de lenço atrás, de pique, de esconde esconde, andava de carrinho de rolimã nas calçadas, com os dedões esfolados para brecar o carrinho, não freava os meus sonhos de amor.
Sonhava em ser uma princesa, em seguida mudava de opinião. De princesa queria ser trapezista e de trapezista queria ser aeromoça e de aeromoça queria ser cantora e de cantora queria ser artista e de artista...
E assim de sonhos em sonhos, sonhei em ser bailarina.
E esse foi o maior e mais duradouro sonho que tive.
Família mineira tradicional, rígida nos princípios morais e cheinha de preconceitos, não admitia. Proporcionou-me outra opção: estudar piano.
Comecei estudar piano, ainda muito, muito menina.
Apaixonada por música gostava de brincar com as notas pretas e brancas do piano.
Mas queria ser bailarina!
Mudamos para o interior de São Paulo, minha esperança aumentou e mais uma vez pedi para estudar balé.
A resposta, mais uma vez negativa e sem justificativa para mim, me fez pensar em vingança.
Continuei estudando piano, pois não tinha nenhuma condição de lutar pelo meu sonho.
Em todos os dias das aulas de piano, no conservatório Carlos Gomes, entrava na sala que era reservada para a aula de balé.
Era uma sala enorme, assoalhos brilhantes, nas janelas cortinas esvoaçantes, nos cantos pianos de caudas, a sala maior e a mais linda que ficou em minha memória.
Nas paredes, bailarinas desenhadas, na ponta dos pés, saias armadas, rodadas, coloridas, faziam meus olhos se fixarem, e eu, sonhando acordada, dançava e dançava.
Dançava muito de olhos abertos e sem sair do lugar...
 
Rebelde e contestadora queria largar o piano. Foi o que fiz depois de estar no quinto ano, quase uma professora de piano, com apenas catorze anos de idade.
Ganhei uma bolsa de estudo de piano, no concurso que houve para isso, por incrível que possa parecer.
Gostava do piano.
Mas queria ser bailarina!
 
Hoje, nem bailarina, nem pianista, danço meus sonhos, escuto as notas que nunca mais toquei...
 
Tirei grandes lições de vida: nunca mais, até hoje, abandonei nada do que comecei.
Nunca mais troquei uma coisa que gostasse, por outra que embora gostasse, não pudesse ter.
Aprendi a respeitar todo e qualquer sonho de todas as crianças.
E o que será, será...
 
(Sperazzo)
Sperazzo
Enviado por Sperazzo em 28/04/2006
Reeditado em 25/10/2010
Código do texto: T146648
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Sperazzo
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