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Pra fazer neném.

Volta e meia, meia volta, ela aparecia do nada lá na nossa rua. Ghéti, assim que a chamavam. Seria mais uma no meio da criançada, se não fosse tão grandona e não tivesse o ácido dom de povoar o jardim da nossa infância com crimes, que hoje saberia, sem qualquer suspeita ou dúvida, que se tratava de mentiras deslavadas.

Diziam uns que ela morava no Morro do Cristo, outros que era na rua da Lama e ela jurava que sua residência era no centro da cidade, bem perto da matriz.

Ela, quando chegava triste, a gente já sabia, “nossa, a Kombi vermelha já pegou mais um”. Então, Ghéti começava a debulhar os horrores. “Mas gente, ele era lá do outro lado do rio e a mãe dele viu quando o pegaram pelos braços e o colocaram na Kombi. Lingüiça, eles estão pegando a meninada pra fazer lingüiça. Eu conheço a família dele. Foram à polícia e a polícia nunca pega os caras”. O medo mesmo começou a me contaminar quando, toda rota, suada e com os joelhos relados, a Ghéti chegou pedindo água com açúcar, disse que fora perseguida, ali na rua de baixo, bem perto da minha casa, pela maldita Kombi. “Danou-se”, falei pro meu umbigo. Estou mesmo ferrado, não posso mais sair de casa, senão viro lingüiça.

Lá em casa o pessoal dizia que essa tal Ghéti era cretina, “mentirosa de marca maior” e que lá na polícia não havia nenhuma ocorrência. Um menino estava desaparecido sim, mas ao que tudo indicava, ele quis desaparecer dada a causa dos maus tratos que recebia em casa da madrasta. Já havia pistas de que ele estaria em Governador Valadares.

Que o menino estivesse em Valadares, em Vitória, em São Paulo ou na Conchinchina, o medo continuava a me paralizar a ponto de querer de deixar de ir à escola.

O tempo passou, a Ghéti sumiu do mapa. Disseram que ela mesma havia virado lingüiça. Com o sumiço dela, a tranqüilidade voltou. Nada mais de ruim acontecia, exceto alguns dedos esfolados nas ”peladas” do Cantão.

Não é que passados anos, estava eu e o meu velho, a comprar na feira livre e a Ghéti estava por lá, barriguda, carregava um filho no ventre. Arguta, pechinchava preço em tudo. Não falei com ela. Mas deu-me uma vontade bruta de dar-lhe um beliscão, assim como ela fazia com a gente e dizê-la: “ Aê dona Ghéti, quer dizer então que o pessoal da Kombi vermelha mudou de ramo, agora deram a fazer neném?

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Joel Rogerio
Enviado por Joel Rogerio em 28/04/2006
Código do texto: T146838
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Sobre o autor
Joel Rogerio
Colatina - Espírito Santo - Brasil
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