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Nós, os arrogantes

- Bom dia, pessoal. A aula de hoje é sobre fraseologia musical. Você aí, sabe o que é frase musical?

O dedo do professor aponta para mim. Os olhares acompanham. Tenho que pensar rápido numa resposta. Vejamos. Se frase no português é uma unidade lingüística que comunica, como será que é na música? Uma unidade musical que comunica? Deve ser... Talvez possamos entendê-la como um trecho da melodia em que se reconheça começo, meio e fim, transmitido uma idéia una. Isso.

O sangue me queima as faces. Já tenho minha resposta, mas de repente o instinto trava minha língua, dizendo que não devo falar. Esse é o tipo de resposta que desperta polêmica e, não raro, a antipatia dos colegas. Causa chiados nas cadeiras de trás, rende piadinha no corredor e, mesmo se estiver correta, embaraça a gente em vez de nos fazer sentir bem. É fato: o povo parece que odeia quando alguém acerta precisamente, e não sei por que.

Afinal, não usei palavras gratuitamente difíceis. Não bajulei ninguém no meu discurso. Não criei períodos complexos nem metáforas chatas para me exibir. Não me exibi, ou pelo menos não queria. Usei a expressão “idéia una” porque achei que a tal frase transmitia uma idéia una. (E não é?). Usei a expressão “unidade lingüística” porque a frase é uma unidade lingüística. (E não é?). Se for diferente, por favor, me avise. Eu pelo menos vi a coisa assim, e disse como acho que deve ser dita. A gente merece, por causa disso, ser apontada como alguém que quer chamar atenção?

E se estou conversando com amigos sobre poesia, no meio da rua, e falo do soneto romântico de Florbela Espanca? Às vezes, agem como se a gente tivesse cometido uma pequena gafe. Ou, pior, aquele sorrisinho acusador de “você realmente se acha o buraco central da cream cracker”.

Não me acho. Mas, eu tenho culpa se o texto da mulher é um soneto? Tenho culpa se o nome dela não é Baudelaire, nem Drummond, nem Tonha, nem o escambau, mas é Florbela Espanca? E tenho culpa se o soneto de Florbela Espanca não é moderno, nem parnasiano, mas romântico? Putz, vocês sabem o que realmente é romantismo? E eu tenho culpa por que sei? Ou nem devia ter falado?

Deus que me perdoe mil vezes. Não sou fã de exibicionismo, de citar pessoas ilustres para impressionar, de falar pomposo, inútil... Mas, às vezes, a gente paga caro por ser um pouco diferente e tem que se vigiar pra não acabar mal interpretado. Arrogante, não sou. Apenas não vejo a literatura como algo distante. Você vai admitir que a realidade cultural do Brasil anda abaixo da média. E assuntos tidos por “intelectualizados” são na verdade coisinhas que deviam fazer parte de qualquer conversa de ponto de ônibus. Reconheço-me limitada e ignorante em muitos assuntos. Mas também acho injusto ser mal vista quando quero trocar idéias, e ter de me calar ou pedir desculpas porque falei algo que alguém não sabia.

Falo em nome das criaturas estranhas que entram em salas de aula caladas e saem mudas. Esse pessoal que tem fama de CDF, essa timidez sem tamanho, aparência estranha e um jeitinho insuportável de “ainda vencerei”. Isso, os nerds, os arrogantes. Regra geral eles querem contato com o mundo. Mas, quanto mais lêem, mais sozinhos se sentem, pois o mundo é que não quer contato com eles, como são.

Depois de compreender meu “lugar intelectual” nesse mundo (acima de alguns e abaixo de outros), tornei-me mais tranquila quanto a essas coisas. Aceitei uma certa solidão moral e achei raras companhias fortes. E passei, confesso, a controlar certa pontinha de arrogância que parece me assombrar aonde eu for. Pelo menos aonde eu for e entender do assunto.

Um dos mecanismos adotados foi falar pouco. Ou jogar muita conversa fora, mas não ser tão “eu” em presença de estranhos. Digo, não me exibir. Baixar a bola. Controlar-me.
Sorri.
- Não tenho idéia, professor. O que é frase musical?
A vida se torna um pouco conflituosa, mas ela já seria de qualquer forma. E o pior é que a resposta tava certa. Mas ficamos por aqui, pra você não achar que sou arrogante. A tal da fraseologia fica meio prejudicada, compartilhar e construir conhecimento é coisa meio complicada. Conversar soaria exibir-se, provocaria chiado nas cadeiras de trás e piadinhas no corredor.
Jéssica Callou
Enviado por Jéssica Callou em 30/04/2006
Código do texto: T147826
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Sobre a autora
Jéssica Callou
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 28 anos
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Jéssica Callou