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Deus, beleza e suor III

Um olhar com amor, para o mundo que nos rodeia, desperta numa criança, rasgos de cor e poesia. Ela consegue captar um mundo diferente, onde o sonho e a realidade se confunde num só.

CONTINUAÇÃO...

Cinco homens, calças arregaçadas, pés calejados e nus, saltam para dentro do tanque, pela coluna o primeiro arrepio, ao sentir as uvas cederem sobre o seu peso, e generosamente deixarem seu sumo romper. Eles perfilam-se, agarrados aos ombros uns dos outros, tendo os últimos da fila um bastão onde se irão apoiar no decorrer da jornada. Fora do tanque, outros homens tocam seus instrumentos, acordes simples e belos, onde as suas notas intemporais, se perdem na memória do tempo. Estas marcam um ritmo lento e constante, que servirá para dentro do tanque os homens responderem cantando, marcando dessa forma o ritmo dos seus passos. Marchando no mesmo lugar e como um só, os cinco homens dão inicio á jornada… Sobre os seus pés as uvas são esmagadas, seu suco deliciosamente doce, cor vermelho esbranquiçado, dá boa tarde á vida…A mulheres, essas sorriem, acompanham o cântico dos homens, numa voz melodiosa, fina e segura, transferindo para o acto, o necessário encanto da presença feminina. A concertina faz um solo, os ferrinhos seguem-na atentamente, a guitarra geme sobre os dedos experientes de muitas jornadas! Mas esta jornada ainda vai no seu inicio…já alguns escassos passos avançaram os homens, sua cara, queimada pelo sol, não deixa transparecer algum enfado, olham de quando em vez para trás, e como por magia, um rasto de espuma avermelhada mostra o resultado do seu trabalho…
Uma jovem mulher olha para a eira ao lado, onde recentemente ajudou a fazer a descamisada ou desfolhada. Nela dormem ao sol, os grãos de milho, que numa noite de verão ajudou a desfolhar, e mais tarde a malhar. Na sua lembrança ainda perdura o gosto do beijo daquele rapaz que ali está, pisando paulatinamente as uvas, que lhe deu, ao descobrir aquela espiga mágica e vermelha ( Milho Rei), que fez bater o seu coração ao ritmo do Vira, acelerando e rodopiando. A palidez da sua pele roboriza-se um pouco, ao lembrar o olhar maroto da sua prima o sorriso da sua mãe … seus olhos verdes brilham intensamente, e seus cabelos loiros descaiam em cachos pelo seu xale que a sua madrinha lhe ofereceu quando completou as suas 18 primaveras. Na lembrança perdura aqueles tempos de menina, em que descalça, cabelos ao vento, com ele corria ao longo do Douro, de mãos dadas e rindo descontraidamente, vendo os barcos Rabelo carregando em seu seio, as pipas do néctar que estas encostas humildemente ofereceram ao mundo… ainda sente a fragrância suave da relva molhada, pisada debaixo dos seus corpos, o aroma da terra que a viu um dia nascer, a dança das sombras que suavemente levitavam sobre o rio.
Estas mulheres de pele branca olhos verdes ou azuis, cabelo cor de oiro, de origem celta, fazem parte do Douro, da sua beleza, da sua magia…Elas trazem consigo a melodia da beleza, a serenidade do olhar, a tenacidade de uma guerreira, o gingar de bailarina, transportando no seu peito o amor puro pela vida. São estas guerreiras que ao lado do homem, sempre estiveram presente, lutando contra as montanhas que ajudou a moldar e com suas mãos a desbravar…
E bem-haja
Façam favor de serem felizes
Alma Lusíada
Enviado por Alma Lusíada em 01/05/2006
Reeditado em 01/05/2006
Código do texto: T148491
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Sobre o autor
Alma Lusíada
Portugal
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