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Gisele Bundchen foi ao Terapeuta de Santo Amaro

Amarildo entra no galpão correndo, muito excitado. Tibúrcio, sentando no mochinho, larga de lado a cuia e olha para o seu secretário.
- Mas o que é isso vivente, fugindo dos brigadianos? Viu o fantasma do bombachudo da Aços Finos Piratini?
- Seu Tibúrcio, o senhor não adivinha quem tá aí?
- Amarildo, se eu gostasse de adivinhar eu não te pagava pra ser meu secretário, seu bosta seca de vaca.
- É a modelo famosa aquela, a Gisele Bundchen. Chegou de surpresa, para não chamar a atenção.
- Mas bah Amarildo – disse o Terapeuta de Santo Amaro olhando pra rua. Com uma limusine dessas não tem como não chamar atenção. E ainda mais com aquele monte de negrão vestido de preto em volta.
- São os seguranças dela, seu Tibúrcio. A Gisele Bundchen aqui em Santo Amaro! O senhor conhece, né?
- Essa não é aquela alemoa caruda e perna fina de Horizontina que foi pro exterior usar vestido?
- Seu Tibúrcio, ela é a modelo mais famosa do mundo! O senhor não olha TV? Veja, ela tá descendo.
- Mas bah Amarildo, não é que a gringa é uma potranca puro sangue. Olha lá, a pele da bicha brilha no sol. E as teta são de respeito. Só que, com o perdão do trocadilho óbvio, tem pouca “bundchen”. Amarildo, manda ela entrar, mas deixa os negrões de fora. Solta o Paciência e o Maracaio da corrente e bota eles na porta, que é para garantir.
Gisele Bundchen entra. Quando vai se apresentar, o Terapeuta de Santo Amaro a interrompe:
- Ô guria, com esse decote tu nem precisa se apresentar. Senta aí, cruza as pernas e mexe o cabelo que tá bom. Vai, desembucha o que te estressa e te deprime, gringa.
- Seu Tibúrcio, eu estou de coração partido. Estou me sentindo carente, sozinha.
- O quê, falta macho pra tí? Tu tá me atochando, né gringa.
- Não Seu Tibúrcio, é verdade. Embora eu seja uma mulher bonita, desejada por homens de todo o mundo, eu não consigo esquecer o Léo, aquele gato.
- Léo? Gato? Que Léo? Elé é um gato? Você é zoófila, gringa?
- Ora, o senhor não conhece? O Leonardo Di Caprio, aquele que fez o Titanic. Ele é um gato, lindo.
- Ah, gato. Entendi.  O Titanic não é o barco aquele que afundou em mil novecentos e começo do mundo?
- Sim, esse mesmo. O meu gato, o Léo...
- Tá explicado gringa. Tu namora o qüera que fez um navio no tempo em que Borges de Medeiros era governador do Rio Grande. Mas ele deve tá bem veterano, não tá? O vivente, véio assim, ainda “cobre”? Ainda “mia” o gato?
- Não seu terapeuta, ele não construiu o “navio”, ele fez o “filme” Titanic, do James Cameron. O senhor viu?
- James Cameron? Nunca vi. Ele mora aqui em Santo Amaro ou em Horizontina?
- Perguntei se você viu o filme, não o James... deixa pra lá. Seu Tibúrcio, me falaram que o senhor é o melhor terapeuta do mundo. A verdade é que eu não esqueço o Léo. Tô até aprendendo a tocar violão para esquecê-lo e...
- Corda de aço ou de nylon?
- Como? O que tem a ver, senhor Terapeuta? ( Tibúrcio faz cara de brabo.) Ora... aço.
- Ruim, aço é muito extrovertido, inadequado na tua condição. Música americana ou nativa?
- Olha, americana né. Até apareci no Fantástico arranhando um Pink Floyd. O senhor viu?
- Não gringa. Ô Amarildo, deixa de ficar aí escondido atrás da porta, babando, e vai lá na casa e pega o meu Di Giorgio clássico, modelo 1974. A madeira dele tá curtida e o timbre tá pra lá de bom. E o som do nylon é introspectivo.
- Mas eu não vim aqui aprender violão – fala Gisele. Eu quero aliviar a saudade do Léo, aquele gato.
- Não se preocupa, não cobro couver artístico. É parte da terapia pra alemoa de coração partido.
Amarildo vem com o violão. Tibúrcio pega o instrumento, faz um mi maior de gavetão e solta a voz: “Churrasco, bom chimarrão, fandango trago e mulher, é disso que o véio gosta, é isso que o véio quer”.
- E daí gringa, gostou? É dum cuera lá de Triunfo, amigo meu, que sempre que vem a General Câmara passa aqui em Santo Amaro pra prosear comigo– disse o Terapeuta, olhar fixo no decote de Gisele.
- Eu vou embora, foi um erro eu ter vindo aqui. Você não diz coisa com coisa e fica me olhando como um tarado.
- Mas bah gringa, não te assanha que eu gosto é de carne gorda. De ti só se aproveita o couro e as tetas.
- Mas que grosso tabacudo. Eu sou a Gilese Bubdchen! E você não é terapeuta, é uma fraude!
- Fraude é o teu “gato”, que faz navio que afunda. Eu já fiz muito caíco por aí e nenhum afundou. Ademais, tu é uma potranca, não daria certo namorando um gato. Mas continuemos a etapa prática da terapia. Amarildo, sai de trás dessa porta, seu bosta! Busca o San lá em casa. Rápido! E para de babar, já falei!
- Mas que desaforo! Já disse que vou embora. O quê é isso? Quem é esse San?
- Sandoval, um gatinho órfão que pintou por aqui. Como tu tem essa fixação por gato, vou te arrumar um. Tu é um caso de zoofilia enrustida. Como tem esses peitões, vou botar o Sandoval a nanar no meio deles. A troca de afeto resolverá o seu problema e o dele. Mas não vá me perverter o bichano, viu gringa. O Sandoval só tem dois meses!
- Ninguém vai botar um gato pulguento pra deitar nos meus seios. Socorro, seguranças!
Os seguranças acodem. Maracaio avança sobre eles. Paciência permanece sentado, coçando as pulgas.
- O senhor vai ver, meus seguranças vão matar esses guaipecas e lhe dar uma surra depois.
- Gringa, quando o Paciência levantar e perder a paciência, será o fim desses negrões. Agora pega o Sandoval no colo. Pega, ô pouca “bundchen”, se me permite o trocadilho óbvio!

PS - Viva Luis Fernando Veríssimo, o grande mestre.
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 02/05/2006
Reeditado em 02/05/2006
Código do texto: T149017
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
João Adolfo Guerreiro
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