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CONTAGEM REGRESSIVA

O pássaro volteia próximo à janela. Acaba pousando na ramagem da árvore. O sol quase posto reflete raios entre a soberba dos edifícios. Antenas parabólicas encimando as construções parecem cabeças de estranhos seres. A brisa forte neste dezembro de natal borrifa os ipês lilases e a vida é plácida desde cedo da tarde. Ruas desertas, somente um barzinho e sua algaravia de vinho e cerveja. Há pessoas taciturnas, olhando pro chão, andando a esmo, como se buscassem o que não existe ou algo que se perdeu há algum tempo. Estou triste e alegre, ao mesmo tempo. Acabo de ver na televisão a notícia de que a comunidade de um bairro classe média preparou uma ceia de Natal para os pobres que vivem nas ruas da provinciana cidade de quase um milhão e meio de habitantes: peru recheado, saladas, tudo meticulosamente organizado para mais de cem convidados. Um sem-teto declara a exclusão a que são submetidos todos os dias. Denunciava com a veemência de quem nunca teve voz e vez. E saudava a boa-nova do jantar dedicado à solidariedade natalina. Toda a festa fora preparada tendo por cena urbana paredes e local embaixo de um viaduto. O cimento ganhava vida entre presentes e docinhos. O mesmo vento de ruas e árvores borrifava os balões inflados. Uma mulher do povo, grávida, inflava vida em seus quase oito meses de espera. A associação local dos catadores de papéis instala um carrinho (daqueles de apanhar as sobras nos lixos na grande cidade) como um totem denunciador. Está embalado pra presente com fitas vermelhas e verdes, esvoaçantes. Os olhos das crianças brilham. Assim como a burguesia espera o Natal em suas casas, a vida se fez serena, solidária, nos portais da exclusão social. Ao menos hoje, o Natal me parece mais próximo de suas origens: uma estrebaria, um menino entre bichos, palha, e o povo espalhado na estrada, aguardando a Boa-Nova que inundou os vilarejos, aldeiolas e os caminhos desertos de centuriões e reis. Sandálias sujas de lama, pó e a fome marcavam a chegada do Nazareno, o rei dos pobres, dos excluídos de todos os tempos. Dizem que depois houve incenso e mirra trazidos por outros Reis, que se perderam nos tempos. O céu de Porto Alegre, sul do Brasil, tinge-se de flocos alaranjados e uma estrela brilhante reina – soberana – entre sombras urbanas, soturna como o meu coração condoído. Faltam algumas horas para a ceia de Natal e um gosto ácido de vinho amarga a boca. Mesmo assim, acho que teremos alguma diferença dos natais anteriores. O personagem lírico suspira, num longo hausto, um sentimento singelo e álgido que dói nos ossos: A ESPERANÇA... Haverá algo espiritual que possa unir a figura dos profetas e a dos poetas? No ar, vislumbra-se algo mais do que aviões de carreira, num céu de brigadeiro...

– Do livro inédito O HÁLITO DAS PALAVRAS, 2008/11.
http://recantodasletras.uol.com.br/cronicas/150155
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 04/05/2006
Reeditado em 26/10/2011
Código do texto: T150155
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 70 anos
2581 textos (709762 leituras)
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Joaquim Moncks