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A CATAPULTA

   Regina, uma aluna da 7ª série, da turma C, do turno vespertino, viera de uma escola pública estadual transferida como repetente e matriculara-se no Cenecista de Paripe.
   Essa aluna tinha cerca de seus quinze anos, cabelos pretos lisos, cortados bem curtinhos, moreninha, nariz afilado, voz bastante aguda. Quando falava aparecia às veias do pescoço.
   Era uma adolescente bastante agitada e arrogante, tanto que a turma dizia que ela não levava desaforo para casa; por isso, chamavam-na: "Regina Espoleta". Gostava de discordar de qualquer sugestão que alguém expusesse para ela. Comumente sentava-se no fundo da sala de aula e, na maioria da vezes, conversava durante as aulas de História e de outras disciplinas como sabiam todos os professores. Os funcionários do colégio, nos comentários entre si, achavam-na arrogante, distraída e desatenciosa. Gostava de participar de algazarra em grupos nos trens e transportes coletivos, fazendo batuques, cantando músicas inconvenientes aos bons costumes, às vezes acompanhadas de gestos obscenos, assobiando com os dedos na boca. Dizia-se, abertamente, para os seus colegas, que era "meia" virgem, visto que o único namorado que a teve não foi homem para tirar "toda" a sua virgindade.
   Em uma determinada aula de História expositiva, com o uso de projetor de "slide", gravuras de revistas, "pôsteres" e materiais que representavam cenas da história medieval, o professor explanava a respeito do cotidiano da vida desse período; falava das plantações nos campos, dos aspectos das ruas, das pequenas vilas, dos castelos medievais, dos conventos, das vestimentas do cotidiano das pessoas, da alimentação, dos torneios, muito comum nessa época, da influência da Igreja Católica na sociedade, no intuito de fazer com que as equipes de alunos, compostas de seis componentes, assimilassem, com precisão, aquele período da História.
   Com o conhecimento dessa aula de História, os alunos teriam facilidade de confeccionarem "maquetes" representando castelos, igrejas, conventos, campos e torneios  ou cenas dos tempos medievais, etc. Enfim, o objetivo pedagógico principal era a construção do conhecimento à respeito da vida em sociedade nos tempos medievais.
   Em um dado momento, o professor através de "slides" mostrou os tipos de armas, bastante utilizadas naquela época, como: a besta, a catapulta, a alabarda e a utilização de cada uma.
   Naquele ínterim, Regina que estava no fundo da sala de aula, conversando com duas colegas, levantou-se, pôs as mãos nos quadris, com voz aguda e em tom bastante elevado, indagou para o professor:
   - Professor, o que o senhor disse que eu não ouvi direito? O senhor pode me fazer o favor de repetir?
   - O jovem professor, com seus óculos de lentes grossas, com bastante calma e paciência, em bom tom de voz equilibrada, mostrando com o apontador para as figuras projetadas na parede pelo projetor de "slide", assim, pronunciou-se:
   - Pois não, senhorita Regina, eu disse, isso aqui é uma besta, uma catapulta, uma alabarda, etc.
   Regina com passos rápidos se dirigiu à porta de saída da sala de aula, pôs as mãos nos quadris, virou-se para o professor, fazendo um rápido remelexo no corpo, com ar de desprezo e um tom de voz estridente e disse-lhe:
   - Me respeita professor! Eu não fiz nada para o senhor me tratar desse jeito! Veja como eu lhe trato! Nem para mim o senhor olha! O senhor só olha para a parede! Eu não vou mais assistir a sua aula! O senhor está doido! Isso não é coisa que um professor diga a uma aluna em sala de aula! Isso não vai ficar assim!... Por que você me chamou de tanto nome feio e me desrespeitou?!!!
   A classe inteira deu gargalhada. Regina se retirou da sala de aula bastante aborrecida, blasfemando contra os colegas e os professores. Então o professor prosseguiu, normalmente, com suas explanações a respeito dos tempos medievais.
   No dia seguinte, o professor fora convidado a se apresentar à diretoria do colégio. Chegando lá, estava Regina demonstrando ser uma adolescente inocente, sofrida, bem comportada, com cara de vítima. Sua mãe fora apresentada ao professor pelo diretor. Era uma senhora simpática, embora parecesse ser uma pessoa sofrida devido às amarguras da vida. Essa senhora, morena de cabelos pretos lisos e voz rouca, na oportunidade deu um sorriso sem graça para o professor e relatou o seguinte:
   - Professor, Regina chegou ontem em casa bastante nervosa, queixando-se que o senhor a ofendeu com palavreados pejorativos e indecentes, expondo ela ao ridículo diante dos colegas. Disse-me, pela manhã, que não pode dormir durante a noite.
   No final da fala da jovem senhora, Regina olhou com desdém para o professor dizendo:
   - Minha mãe eu tenho provas que ele me ofendeu!... Disse-me que eu era uma catapulta, besta e burra.
   Nesse momento o diretor, professor Ademilton interferiu, falando para Regina:
   - Regina, o professor ouviu atentamente com respeito e paciência a sua mãe. Eu já lhe ouvi o que você tinha de dizer. Agora é a vez do professor Luciano, precisamos ouvi-lo.
   Com voz calma e gestos bem equilibrados, o professor Luciano explanou para os presentes:
   - Minha senhora, na terça-feira, durante a aula de história, da turma da senhorita Regina, eu estava explicando o cotidiano dos tempos medievais. Nessa aula ilustrada com gravuras e um projetor de "slides" estudávamos as cenas da Idade Média. O  objetivo daquela aula era fazer com que as equipes dos alunos vivenciassem o cotidiano dos tempos medievais, a fim de adquirirem subsídios para construírem "maquetes" que representassem o perído dos tempos medievais. Foi combinada com a turma que iríamos fazer uma exposição dos trabalhos das equipes, das três turmas, "A", "B" e "C", na biblioteca da escola e avaliarmos o melhor trabalho.
   Neste dia de aula em que Regina estava sentada no fundo da sala conversando com uma colega. Ela estava totalmente distraída. Levantou-se e foi até a porta que dar à saída da sala de aula e me perguntou o que eu tinha dito. Então, mostrei com o apontador para as figuras projetadas na parede através do projetor do "slide" e, disse-lhe que as figuras eram de uma "besta", de uma "catapulta" e de uma "alabarda". Foi quando ela me pediu para que eu respeitasse e saiu, sem ao menos ouvir o que eu tinha para lhe dizer.
   Naquele ínterim, a mãe interrompe o professor e vira-se para Regina com olhar repreensivo demonstrando contrariedade e pergunta-lhe:
   - Péra ai professor! Com licença. Foi isso mesmo Regina?!!! Você ficou muda! Vamo... Vamo logo! Fale! Me responda menina?!!!
   Regina apenas balançava a cabeça imitando "vaca de presépio", mordendo os lábios, demonstrando uma raiva indescritível.
   No momento em que Regina baixou cabeça, o professor Luciano com voz calma disse:
   - Regina, catapulta, besta e alabarda são armas militares da Idade Média. Catapulta era uma arma de guerra muito utilizada nos tempos medievais para arremessar projéteis. E a besta é uma arma que dispara setas ou balas de metal, também muito usada naqueles tempos. Em momento algum eu ousei ofender a você ou alguém. Finalizando, Regina, quero que aprenda uma coisa verdadeira: quem não procura ouvir bem, escreve mal, pensa mal, fala o que não deve e age errado.
   A mãe de Regina pediu desculpas ao professor e ao diretor, por haver ocupado o tempo de ambos, logo em seguida, virou-se para Regina e com  tom de voz agressiva, disse-lhe:
   - Minha filha. Não é... Você é uma catapulta mesmo!...
                     
                      Salvador-Ba, 02/02/2006
                       Everaldo Cerqueira
   
EVERALDO CERQUEIRA
Enviado por EVERALDO CERQUEIRA em 06/05/2006
Reeditado em 13/07/2008
Código do texto: T151401
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Sobre o autor
EVERALDO CERQUEIRA
Salvador - Bahia - Brasil
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EVERALDO CERQUEIRA