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SOBRE A HORA MÁGICA

Em que pese a feiúra do lugar onde me encontro, Outono é Outono e na hora em que a noite vem brotando do chão o verde vai sumindo, tomando para si os contornos da escuridão e hora mágica me envolve, acorda os grilos e me revela a energia da Terra posta contra o céu...
 Tento não ver os postes com seus fios pendurados testemunhando o relaxo da companhia de luz e o desmazelo das linhas telefônicas, tento não sentir a falta do frio e encontrar o tom do azul profundo da latitude donde nasci, vou para além da minha rua, para a clareira da praça que ainda não é praça e espero por aquilo que vou ver...
Noutro dia descobri por acaso que pode ser apenas um defeito dos meus olhos e que, na verdade, os olhos normais de todo o mundo nunca viram o que vejo desde menino.  Aliás,  tenho descoberto tantas coisas dentro de mim, que sempre as tratei como as coisas do menino que não morreu, que dou graças a Deus por não ter tido psicóloga nem energia elétrica regular na cidade onde nasci até na década de 70.
Muitas destas coisas são coisas bem simples, bobagens até, por exemplo: eu sinto o cheiro do frio... A noite para mim brota do chão... As corujas sabem onde eu estou... Os grilos e as aranhas não se importam com a minha presença... A vida só espera o meu silêncio e fui ao meu redor igual uma fonte que brota do chão... A vida tem música...
Sobre as mais complexas não vou falar. São coisas tais como ondas de luz ou de som que se abrem por todos os lugares. Muito parecido com as coisas do menino que não morreu, que eu as chamava de janelas e hoje as chamo de diferentes dimensões... Ainda bem que já inventaram as psicólogas, mas o que me salva mesmo é a descoberta da física quântica...
Pois é, como eu ia dizendo, noutro dia eu comentava com um amigo sobre a hora mágica e, quanto mais eu falava, mais ele olhava para mim, embora eu apontasse para as árvores e dissesse: vês?
Não, não via e o meu bom senso foi tratando de desconversar, falar em possíveis reflexos... De repente alguma coisa nas lentes dos meus óculos...
Por isso é que gosto de estar sós na hora mágica: convivo com esse defeito dos meus olhos desde que nasci, e não me importo de esperar para ver o que a Terra vai me mostrar quando a noite vem brotando e subindo pelas árvores e coqueiros tornando-as silhuetas contra o céu azul profundo. Lá, onde eu nasci, o frio da hora acentuava tudo, mas aqui, também se vê o momento em que a energia da Terra sobe com a noite e cintila por instantes sobre todas as plantas.
Chico Steffanello
Enviado por Chico Steffanello em 06/05/2006
Reeditado em 13/02/2007
Código do texto: T151551

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Sobre o autor
Chico Steffanello
Sinop - Mato Grosso - Brasil, 58 anos
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