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Momentos

Tá, vai. Todo mundo precisa de um tempo para ficar sozinho, pensar na vida, refletir, eticétera. Tudo bem que foi meio estranho, concordo, o meu momento ser justo aquele. Eram umas três horas da madruga, no fervor da noite, na boate. Mas, desculpe-me, era o meu momento.

Por que as pessoas confundem isso com tristeza? Sono? Coma alcoólico? Gente, era só o meu momento que deu na telha de acontecer ali, naquela hora, naquele lugarzinho, pedacinho do céu.

Subi para o segundo andar, onde as músicas estavam obviamente melhores, e me recostei numa cadeira e coloquei os pés em outra. Minha cabeça estava levemente inclinada, minha cerveja quase quente e, me parece, este foi o momento ideal para um ser humano me cutucar e gritar “Não dorme, não!”. Acreditam? Ele fez isso mesmo. E ainda ficou parado na minha frente me encarando e, sei lá, esperando uma resposta. Claro que fingi que ele era uma mosquinha idiota e continuei pensando na tonga da mironga do kabuletê.

Reparei numa mocinha de laranja, com uma saia linda toda colorida, parecida com uma colcha de retalhos. Ela dançava tão livremente e era uma visão reconfortante. Fiquei olhando. Ela acompanhava a música do Rappa e dançava bem sincronizada com aquela realidade. Linda! E me vem uma mocinha, de longe, com cara que parecia de choro, mas na realidade era solidariedade para com a minha tristeza. Ela perguntou se eu estava bem, se eu queria alguém pra conversar, se eu sofria por uma amor não correspondido, se eu queria sei lá o quê. Ela foi tão incisiva que eu tive que responder “Não. Obrigada. Tá tudo bem. Só to aqui pensando, refletindo e...”. Aí a bendita me senta do lado e começa a filosofar coisas de bêbado comigo. Ai, que saco! Pensei o que poderia eu, humilde mortal, fazer para me livrar de tão carinhosa companhia. Aí resolvi de falar de coisas que, imaginei, ela não se interessaria. Falei de Sartre, Freud, Sócrates, Platão, Descartes. Ela ouviu tudo e me disse “Rosa é o novo vermelho.”. Ãh? Entendi que ignorar seria a melhor opção. Até que ela cansou de falar “Ou. Não tá me ouvindo não? Alôo.” e foi-se embora.

A mocinha de laranja ainda dançava como se estivesse possuída, de olhos fechados e me embalou junto, em pensamentos. Pensei muito, em muitas coisas, em várias coisas que deveria mudar, outras que devia manter, amigos, família, profissão, o sonho publicar um livro e outras coisas que não me lembro mais.

“Já estávamos preocupadas com você. O que você tá fazendo aqui em cima sozinha? Você sumiu de repente. Tá passando mal? Quer vomitar? O que foi?”. Tá, vai. A gente desconsidera a interrupção porque é amigo preocupado com o seu bem estar e, verdade, ninguém tem que adivinhar o que tá rolando se você não diz. Mas o meu pensamento tava enrolado naquela saia de retalhos coloridos e, como ela, senti que deveria fechar os olhos e me deixar levar. Minha amiga me levou pelo braço e me colocou lá embaixo, no meio de um tanto de pessoas frenéticas dançando um tum-tum-tum sem muito sentido e lá fiquei.

Ainda ouvi um “Achei a louca lá em cima viajando na maionese. Fica de olho nela aí.”. Ri por dentro porque não queria muito sair de dentro pra explicar alguma coisa pro de fora. E matutei, com meus pensamentos dançantes, que o laranja, na verdade, é que é o novo vermelho.
 

Carol Bahasi
Enviado por Carol Bahasi em 08/05/2006
Código do texto: T152426
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Sobre a autora
Carol Bahasi
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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Carol Bahasi