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               Marias de maio

     Nasci no mês de março. 
   Mas, aqui pra nós, não me sentiria incomodado se tivesse desembarcado neste maltratado planeta no mês de maio.         
   Espalharam, que gosto do mês de maio porque ando descontente com o meu signo. Uma deslavada mentira.  Sou de Peixes, e com imensurável prazer. Visitem os 12 Signos do Zodíaco, e verão, que, de todos, Peixes é o mais charmoso. 
   Na Mitologia grega, "Peixes representa Afrodite, a deusa do amor e da beleza, e seu filho Cupido. Para escapar do gigante Tífon, eles se transformaram em peixes, e mergulharam no rio Eufrates". Que chique!
   Para completar, são meus companheiros de signo, entre outros, Michelangelo, Gilberto Freyre,  Nat King Cole, Elis Regina, Gabriel Garcia Marques e Elizabeth Taylor.

     Por que, então, esse amor todo pelo mês de maio?  Muito ligado aos franciscanos, podia ter preferido nascer em junho, o mês de Santo Antônio; ou em outubro, o mês de São Francisco.      Sabem os devotos desses dois taumaturgos - e até os que não confiam neles -, que Antônio de Pádua é ruidosamente festejado no dia 13 de junho; e Francisco de Assis piedosamente venerado no dia 4 de outubro.
     Direi que os meus maios foram sempre muito lindos e comoventes... Curto, como ninguém, as novenas marianas com suas rezas e seus benditos; as rosas e os jasmins dos seus altares; e até os prolongados sermões dos nossos esforçados presbíteros, confirmando, do alto dos seus púlpitos, sem tergiversarem, o Dogma da Virgindade de Maria.
     Recordo-me, que, no seminário seráfico, a gente encerrava o mês de Maria com um bendito que tinha estes versos, e que, volvidos tantos anos, nunca os esqueci: "Um terno adeus de saudade/ Te dão, hoje, os filhos teus/ Adeus! Ó, mãe de bondade/ Rainha do céu, adeus!"
     Em uma dessas novenas  - eu tinha de 11 pra 12 anos - apaixonei-me por Maria Clara, a menina escolhida pela Congregação Mariana da minha paróquia matuta, para, vestidinha de anjo, coroar Nossa Senhora. 
     E deu-se uma coisa interessante. Quando ela subiu ao altar, trazendo nas suas mãozinhas frágeis e pequeninas a coroa da santa, pus-me a perguntar qual das duas Marias eu deveria venerar: Maria Clara, o anjo? Ou Maria de Nazaré, a Imaculada?
     Procurei o meu vigário - um padre conservador; ordenado no início do século 20 -, e, aflito, confessei-lhe minha indecisão; o meu pecado?
     Compreendendo o meu drama, o bom cura abençoou-me, e me aconselhou a venerar as duas Marias ao mesmo tempo. Aos pés das duas Marias ajoelhei-me, e, aliviado, rezei...
     Perdi o anjinho de vista, desde o dia que deixei o sertão cearense. Faz algumas décadas. 
  A santa, entretanto, continua comigo. Estou sempre a agradecer-lhe os favores dela recebidos; e a  pedir-lhe outros. A ela sempre recorro nos meus momentos de angustia e de estresse.
  Ontem, passando pela porta de uma igrejinha, aqui em Salvador, ouvi benditos que aprendera nas novenas marianas de minha infância. Entrei no singelo templo. E, indiferente ao passar das décadas, procurei, no altar-mor, as minhas Marias. 

     Só Maria, a Virgem, estava lá...
   E a Maria Clara? Onde estará?
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 09/05/2006
Reeditado em 27/05/2014
Código do texto: T153251
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Felipe Jucá
Salvador - Bahia - Brasil
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Felipe Jucá

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