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ABRE-TE SÉSAMO

Lembrei-me dos tempos de criança: na fazenda em Santa Catarina havia um paiol, no estilo italiano, feito de tabuas, coberto de tabuinhas, uma espécie de telha, feitas de lascas da madeira do próprio Pinheiro de onde saíram as tabuas, caibros e caibrinhos que, neste caso, não eram bem assim como os conhecemos hoje, havia caibros que eram uma árvore inteira: um Pinheiro com cerca de 40 ou 50 centímetros de diâmetro... Numa das laterais, que no caso era também a “frente”, pois a porta de acesso era ali, havia uma varanda onde se guardava a carroça, a canga, os ajoujos e canzis. Havia também uma cocheira que servia para dar milho ao cavalo e mantê-lo seco em dias de muita chuva. O paiol não tinha forro e quando era enchido de milho em espigas, conseguíamos subir nas suas tesouras e correr de frente pra trás e de trás pra frente sobre suas linhas. Quando vinha a trilhadeira, boa parte do milho era debulhada e enchia uma enorme tulha feita num dos cantos do paiol, nela saltávamos de cima das tesouras. Em baixo do assoalho havia um porão rodeado de taboas na maior altura e na lateral da varanda, servindo de arrimo para o barranco, era forrado de troncos de Xaxins. Ali em baixo funcionava a estrebaria onde se ordenhava e se abrigavam os bezerros das vacas de leite.
Mas o que eu mais gostava no velho paiol era de caçar ratos... Eles se proliferavam em quantia, abrigados em tocas atrás da parede de Xaxins. À noite eles subiam para o milho e para a cumeeira, andando pelos caibros, então, quando em férias ou nalgum final de semana abençoado – que o pai nos deixava passar na casa do tio, munidos de lanternas e espetos de Cambuí, começávamos uma algazarra na estrebaria fazendo com que os indecisos subissem para o milho e dali par a cumeeira, então, era só espeta-los nas barrigas brancas que ficavam à mostra no espaço que ficava do encontro das tabuinhas dos dois telhados em baixo da cumeeira...
Com o passar do tempo eles foram ficando espertos: sabíamos que havia muito rato no paiol, mas já não os encontrávamos. Isso foi assim até numa tarde em que o meu cachorrinho, valente e entusiasmado companheiro de artes e caçadas de ratos, latia insistentemente na estrebaria. Chegando lá, o encontramos pura terra, parecia um tatu, cabia de corpo inteiro num buraco escavado entre dois toros de Xaxins de onde só saía para dar uma respirada... Parecia nos dizer: - Eles estão aqui! Eles estão aqui!...
Então foi a festa! Munidos de cacetes, fizemos planos: soltamos a travessa que segurava a parede e com movimentos de vai-e-vem frouxamos e  depois puxamos os dois Xaxins que ladeavam a toca... Nunca vou me esquecer, no derradeiro instante, meu primo gritou: abre-te Sésamo! E o esconderijo se escancarou a nossa frente: eram muitos ratos que se aboletavam no fundo. O Tupi, meu cachorrinho, que patinava de emoção e impaciência, segurado pelo meu irmão, consegui desvencilhar-se e avançou... Foram tantas pauladas, tantos chutes, saltos e gritos que já não sabíamos se eram de pânico ou guerra... Foi a maior caçada, os que escaparam foram espetados na cumeeira.
Pois é, foi ontem, quando ouvia que a funcionária pública de Cuiabá envolvida no caso das ambulâncias havia delatado mais de cento e cinqüenta parlamentares da Câmara de Deputados, que me lembrei do meu primo gritando abre-te Sésamo!
Nunca vi tanto rato na minha vida...
Chico Steffanello
Enviado por Chico Steffanello em 10/05/2006
Código do texto: T153979

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Sobre o autor
Chico Steffanello
Sinop - Mato Grosso - Brasil, 58 anos
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