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Pingado

Nascemos, crescemos, envelhecemos e voltamos para onde viemos.
Algumas coisas não podem ser industrializadas. O velho e bom pingado, por exemplo. Nele, o café não pode ser expresso. O leite não pode ser semi-desnatado com ômega-3. Não podemos utilizar adoçantes.
A Sadia e a Perdigão que me desculpem, mas a Lasanha de vocês é uma porcaria. Uma vez, experimentei um Strogonoff destes de caixinha. Não passei da primeira colherada.
Não é só no âmbito culinário que me indignação com a modernidade vem à tona. Vejam as crianças de hoje; Trancafiadas em seus apartamentos (estes, cada vez menores), falam até mandarim, mas não sabem se relacionar com outras crianças, a não ser que estejam conectadas à internet. Fazem aula de Judô, Francês, Natação, etc, mas nunca soltaram uma pipa!!!; Nunca jogaram taco!!! Nunca fizeram golzinhos na rua e jogaram futebol descalços!!!! Futebol, só pelo paper-view. Se for jogar, tem que ser com uma chuteira “Nike 90” utilizada pelo Ronaldinho, mesmo que for para brincar de “gol a gol” (esqueci! Elas não sabem o que é isso). Detalhe: Ronaldinho e todos estes craques que aparecem nas propagandas dos caríssimos artigos esportivos, aprenderam a jogar futebol descalços, com bolas de meia.
Hoje em dia, para qualquer emprego, por menor salário que pague, é exigido faculdade, inglês, computação, MBA, etc. Não importa que o salário oferecido seja inferior ao valor gasto para alcançá-lo, ou seja, não importa que paguemos para trabalhar. Mas o pior não é isso. Parece que quanto mais estudamos, menos aprendemos. Eu conheço muitas pessoas (mais velhas) que não concluíram nem a 8ª série, e são muito mais inteligentes do que tantos jovens graduados (inclusive eu).
Às vezes, lembro-me de quando era adolescente. Não tinha carro, dinheiro, nada. E era extremamente feliz, pois vivia na rua me divertindo com meus amigos, beijando as meninas atrás da escola, passando por debaixo da catraca do ônibus. Hoje tenho carro, celular, câmera-digital, som com MP3 e tantas outras bugigangas, com tantas funções que não servem para nada, que quando vou tentar fazer algo elementar, como retirar do “repeat” a música do aparelho de som, tenho que consultar o manual de instruções. E a música repetindo. E o tal do manual? Não encontro o do aparelho de som, apenas do celular. Neste, por sua vez, não encontro onde desativar o toque simultâneo ao vibra. Só encontro instruções sobre “blue-tooth” (dente azul?????). Aliás, se eu coloquei no vibra, provavelmente queria que não fizesse barulho.
Namoro é chat. Ou chato (pelo menos hoje em dia), se você preferir. Você é vc. ~ é aum. Cabelo é chapinha (com a velha escova, a mulher fica muito mais bonita). Pagamos por água mineral (se é que podemos confiar que aqueles vasilhames de 20 litros estavam limpos antes da água “mineral” ser colocada). Pagamos por TV a cabo, pois a aberta está entupida de novelas, programas esdrúxulos de auditório e jornalismo sensacionalista. Pagamos pessoas para vigiar nossas casas. As mesmas pessoas que dão a dica para o assaltante sobre o modo mais fácil de entrar nela. Pagamos, e antecipado, para deixar o carro na rua, e quando voltamos, o aparelho MP3 foi roubado. Tudo bem, eu não conseguia desativar o “repeat” mesmo.
Não, eu não sou resistente a mudanças. Não sou comunista. Não sou revoltado, e não tenho depressão (aliás, isso é moderno, e não gosto de nada moderno). Não estou estressado também (moderno de novo, arghhh). Sei que a mudança é algo inexorável. Sei que a tecnologia pode, um dia, ser importante para nossas vidas. Sei que as coisas se modernizam. Sei que nesse texto, só mencionei as coisas que pioraram com o uso da tecnologia. Mas, por favor, da próxima vez que eu pedir um pingado, passem o café no coador. Utilizem leite integral.E açúcar.
Ivan Sanches
Enviado por Ivan Sanches em 11/05/2006
Código do texto: T154010

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Sobre o autor
Ivan Sanches
Santo André - São Paulo - Brasil, 34 anos
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