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Inglesando

      Especialistas na língua portuguesa advertem: Há um vício de linguagem atingindo nossa língua, principalmente as “atendentes de telefones” (mais para frente às aspas serão compreendidas), denominado pelos estudiosos “gerundismo”. “Vou estar fazendo”, “vou estar telefonando”, “vou estar te retornando”, etc ando, etc endo, etc indo.
      Segundo os especialistas, tal fenômeno foi aumentando sua intensidade graças a tradução incorreta de manuais estrangeiros de treinamento em atendimento ao cliente. Acredito (não sou especialista, é uma mera opinião), que os cursos de inglês em geral, contribuíram para isso também, uma vez que na língua britânica há uma forma de construção das sentenças, denominada “present continous” que, se traduzido ao “pé da letra”, e conseqüentemente, traduzido errado, estimula o mesmo vício.
      Mas não estou aqui para falar disso. Isso me incomoda, mas é um assunto que já foi abordado por tantos, que eu seria apenas mais um crítico de algo que já vem sendo criticado, e não condiz com meu estilo seguir ninguém. Estou aqui para falar do que eu chamo de “Inglesismo”. Mas o que seria inglesismo? É a “arte” de colocar termos ou expressões em inglês, em frases, textos ou discursos em português.
      O inglesismo é praticado com intensidade nas empresas. Frases como “temos que melhorar a “performance” ; “este gasto não está previsto no “budget” ou ainda “nosso “turnover” está baixo”, entre outras, são corriqueiras para quem trabalha diariamente no ramo dos negócios. Alguns dirão que são “termos técnicos”, por isso são ditos em língua inglesa. Eu não conheço “português técnico”; logo, não existe o inglês técnico, ou qualquer outra lingua técnica. E as palavras entre aspas deste parágrafo poderiam ser facilmente substituídas por desempenho, orçamento e giro. Mas tais palavras, se fossem ditas em português, não estariam condizentes com o peito estufado e o ar de superioridade do executivo ao pronunciá-las em inglês.
      Não é só dentro das companhias. Mais exemplos: “Delivery”; “50% of”; “e-mail”; “card”; “Marketing”; “Rent a Car”; e por ai vai....
      Outra coisa. Somos cobrados intensamente em relação à qualidade, pronúncia e até sotaque, quando utilizamos a língua inglesa. Eu mesmo me cobrava muito. E era cobrado por muitos. Até que percebi que todo estrangeiro que vinha trabalhar aqui no Brasil, sem excessão, passava anos por aqui e não aprendia o português. Sequer, disfarçava um pouco o sotaque. Ou seja, por que devo aprender esta língua perfeitamente, ainda por cima, com uma aula por semana?
      Além disso, nunca vi nenhum Americano, Francês, Alemão ou pessoa de qualquer outra nacionalidade pronunciar uma expressão de outra língua em seu discurso. Fico imaginando o Bush fazendo um de seus discursos hilários contra o terrorismo desta maneira: -“ “Povo Americano”, we have to protect our country against that “Inescrupulosos” terrorists”. ("American Citizens", temos que proteger nosso país destes "unscrupulous" terroristas).
      Alguns chamam isso de globalização. Alegam que o inglês é uma língua universal. Eu chamo isso de subserviência; dependência; submissão; marionete; manipulável; baixar a cabeça. Sei que é algo que parece sem importância. Acho que estamos nos acostumando com estes termos, assim como estamos nos acostumando a sermos sem educação, sermos o eterno país do futuro, o país que só é conhecido no mundo pelo futebol, carnaval e a Amazônia. Sim, a Amazônia. Certa vez, vi o cantor Almir Sater dizer algo que me identifiquei muito. Era mais ou menos assim: “há muitos estrangeiros querendo nos dizer como cuidar da Amazônia. Cuidar da Amazônia é fácil. Basta nós não fazermos o que eles fizeram com as florestas que existiam nos países deles”.
      Lembro me também de um trecho um texto, publicado em alguma edição da Revista Veja, feito pela escritora Lya Luft . No final, estava escrito algo parecido com isto: “farei uma palestra em um país estrangeiro. Será com tradutor simultâneo, ou com meu inglês carregado de sotaque”....
      Tenho orgulho do meu Português-Brasileiro. Mas sei falar também, digamos, o meu inglês tupiniquim. E tá bom demais.


“A solução pro nosso povo eu vou dar
Negócio bom assim ninguém nunca viu
Tá tudo pronto aqui é só vir pegar
A solução é alugar o Brasil!

Nós não vamos pagar nada
Nós não vamos pagar nada
É tudo free,
Tá na hora agora é free,
vamo embora
Dar lugar pros gringo entrar
Esse imóvel tá prá alugar.

Os estrangeiros, eu sei que eles vão gostar
Tem o Atlântico, tem vista pro mar
A Amazônia é o jardim do quintal
E o dólar deles paga o nosso mingau.”


Raulzito. Sempre atual. Sempre imortal.


ilsanches@gmail.com
Ivan Sanches
Enviado por Ivan Sanches em 11/05/2006
Reeditado em 17/07/2006
Código do texto: T154513

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Sobre o autor
Ivan Sanches
Santo André - São Paulo - Brasil, 34 anos
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