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BUZINANDO

Coisas insólitas, as mais insólitas, têm o poder de me trazerem à tona memórias, às mais remotas. O que tem a ver a narrativa de um fato acontecido num baile de formatura há tantos anos atrás e o que vou relatar? – Uma palavra... Apenas uma palavra usada pelo narrador que disse:...Deu uma buzinada!
...E lá vou eu, cerca de cinco anos de idade, na garupa da Rosilha: no comando das rédeas o meu pai. Naquele tempo, não tínhamos ainda um carro, que vieram mais tarde na forma de uma Pick Up  e uma Rural Willis, então, o negócio era levantar cedo, encilhar a égua e partir... Se eu não tivesse a garantia do meu peleguino na garupa eu nem dormia: a viagem não era longa, dependendo de onde íamos, andávamos de seis a nove quilômetros e eu nem me importava com o desconforto das ancas da Rosília se movendo cadenciadamente, igual duas enormes rodas ovaladas, bem debaixo da minha bunda.
Tinha o medo de passar a água, era uma nascente que não ficava muito mais longe da minha casa que quinhentos metros, é que uma vez a égua deu um arranque ao passar a sanga e eu parei sentado no meio da lama e da água, mas não perdi aquela viagem; sempre depois de vencida aquela barreira ou depois do pai me garantir que o trilho estava seco, eu relaxava e a madrugada se mostrava inteira para mim: adorava sentir o seu cheiro, cheiro de orvalho frio e cristalino que eu tocava, nas folhas ao meu alcance, ao longo do caminho. Grilos e estrelas: luzes e sons que, na harmonia deles, eu os via e os ouvia nem sempre dentro da lógica; sempre olhava para elas procurando pelos outros... Ouvia estrelas e via grilos...
À medida que a manhã se irradiava sobre a Terra dava para se ver a estradinha de chão batido riscando a sua linha avermelhada entre sobes-e-desces; cada acidente tinha o seu nome de mão dupla: daqui para lá era a Subida, de lá para cá a Descida do Piana, a Subida e a Descida do Pinhal, o Pinhal, que à noite era o Pinhalão... – Vamos ver se passamos o Pinhalão antes da noite, dizia o pai ao sair da fazenda... E apertava-se o passo quando estávamos a pé... A descida dos Felini, daqui para lá, era de arrepiar: íngreme, com uma curva bem no meio, a estradinha ficava cascalhada, com afloramento de rochas e a Rosília dava cada escorregão, na volta, era eu lutando para não parar na bunda da égua, agarrando-me nos arreios e escorregando pelo meu peleguinho que ficava perigosamente inclinado...
Normalmente íamos em silêncio, para mim era ótimo, conversar pra quê? Havia tanto para se saber naquelas entrelinhas... Mas, invariavelmente, o pai sempre brincava comigo, fazendo uma alusão ao nosso “carro”, quando, depois de uma meia hora de caminhada ou mais, o aperto da chincha e o milho comido à noite, segundo o meu pai, transformava-se em gases sob pressão na barriga da Rosilha: - ela está buzinando...
De fato, às vezes, a sessão de puns se prolongava por alguns minutos e vinham ritmados: -  Trrrat! Trat, trat, trat! E, quando o pai cutucava os flancos da égua com as esporas era um TRRRRAT! Seco e ruidoso que chegava ecoar no mato... Assim nos divertíamos um pouco na silenciosa caminhada...
O que me surpreendeu foi o meu amigo usar a palavra buzinada para relatar o acontecido no seu baile de formatura:  eram três inseparáveis amigos, ele, um que darei o nome de Ricardo e uma linda moça, morena, cinturinha de pilão, de uma simpatia incomum e de um sorriso de fazer desavisado perder o assunto, segundo o meu amigo, ela era linda demais... Também segundo ele, nunca tivera nada com ela, já o Ricardo... Era completamente apaixonado, mas, apesar da intimidade de amigos tão próximos,  nunca tivera coragem de se declarar. Dava as suas indiretas, mas sempre com um jeitão travesso, disfarçando em brincadeiras, que ela, talvez nunca tivesse percebido nada.
Naquela tarde do dia do baile, havia segredado ao amigo que aquela seria a noite do tudo ou nada. Como era gordinho, não estranhou a testa do Ricardo  marejada de suor, mas, as suas mãos, além de úmidas, estavam frias: o amigo estava de fato nervoso...
À noite, no salão, os formandos cercavam a pista de dança, eles de smoking, elas de longuinho preto: haveria uma pequena cerimônia antes do início do baile, o vozerio enchia o ambiente, alguns ainda não haviam chegado, mas as famílias e os convidados já lotavam as mesas... Ela, linda mais do que nunca, estava a sua esquerda, cheia de uma ansiedade faceira, mal se continha nas pontas dos pés, olhando o círculo que se formava e não percebeu a aproximação do Ricardo que, como sempre, brincalhão, vinha se aproximando por trás, sorrateiro. Ficaria à esquerda dela... Com um olhar de cumplicidade, suplicou ao amigo que não lhe delatasse a presença. Vinha com os  indicadores em riste, pé ante pé, chegou de supetão e lhes cutucou os flancos acinturados dentro do longuinho...
- Chico, ela conteve um grito, mas deu um pulo pra frente e deu uma buzinada! Imagine eu! Rir, nem pensar... O Ricardo era uma coisa de constrangimento, ela morria de vergonha e escondia o rosto dentro do meu casaco...
Antes de embarcar na minha viagem, ainda imaginei a cena e a tragédia do trio. Pobre Ricardo, que desastre: a noite da sua vida, inteira pela frente e o baile nem havia começado ainda...
Chico Steffanello
Enviado por Chico Steffanello em 11/05/2006
Código do texto: T154520

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Sobre o autor
Chico Steffanello
Sinop - Mato Grosso - Brasil, 58 anos
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