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AS VIAGENS DO MEU TEMPO

AS VIAGENS DO MEU TEMPO
FLAVIO MPINTO

Falar em VIAGENS DO MEU TEMPO é como entender-se que viajar era diferente naquela época. Não, não era.
Mas que época era aquela? Década de 70.
Hoje vi um Dinossauro ( com certeza era um ônibus Perna-de-pau)e me lembrei das constantes idas a São Paulo quando estudava em Campinas. Dinossauro era um modelo de ônibus prateado da Cometa, padrão norte americano, fabricado pela CIFERAL e usado até pouco tempo. Suspensão a ar, ar condicionado, motor traseiro e silencioso. Luxo e conforto na medida exata. Mesmo padrão dos Onda que faziam Rivera-Montevidéu. Cor inclusive.
Eu estranhava , pois costumava viajar nos ônibus da Ouro e Prata( na época Empresa de Transportes Coletivos  estampado na lataria dos veículos) sem ar condicionado e um calor desgraçado. A empresa mudou de nome outras vezes passando de Rainha da Fronteira a Rainsul e por fim o nome que carrega até hoje. Lembro da chegada dos ônibus Bicampeão e dos com corredor fundo, correntes nos pneus e portamalas na traseira para fugir das enchentes do Ibicuí/Upamaroti. Era época da estrada de terra que transformava a ida a Pelotas em dois dias. Mas os veículos do centro do país onde estudava eram diferentes e bem melhores. As estradas também. De Resende, então, partiam, e passavam, a Única com seus veículos meio futuristas , o Expresso Brasileiro, a Viação Resendense, a Cidade do Aço  e a Viação Cometa, todos com destino São Paulo ou Rio. A Resendense e a Cidade do Aço possuíam ônibus mais modestos pois destinavam-se a viagens mais curtas. Já as outras empresas, fortemente pressionadas pela concorrência, colocavam á disposição do público veículos sensacionais. De Resende sempre ia ao Rio competir( era atleta do Vasco da Gama no atletismo) e tinha de viajar bem. Ia de Resendense e voltava pela Cometa ou Única, mas não descia na Rodoviária e sim num posto de paragem na entrada da cidade, Embaixador,  e ia a pé para a AMAN. Era perto. É claro que, naquele eixo populacional muito denso, havia, e há, demanda de passageiros muito grande estimulando as empresas a melhorar seus serviços. De Porto Alegre a São Paulo tínhamos a Minuano e a Centauro. Depois a Penha passou a operar a linha com a aquisição da Minuano e competir com a Real, que adquiriu a Centauro. Melhoria de serviço, queda de preços e maior satisfação dos usuários é a tônica do regime que busca na concorrência a maior eficácia do sistema de transportes de passageiros. Aliás, isto não é privilégio dos transportes rodoviários.
Mas o que me chama atenção é o preço da passagem de Livramento a Porto Alegre e vice-versa. A distância de Belo Horizonte a o Rio de Janeiro é 434 Km e possui duas ou três empresas operando. Entendo que são dois centros populacionais de grande porte, mas de Rivera a Montevidéu são três empresas com preços bem abaixo dos de Livramento –Porto Alegre e com serviços de cair o queixo. Só falta ir um autobusboy Marcopolo distribuindo Norteñas para os cervejeiros.
Naquele tempo tínhamos a escolha- Minuano ou trem comum e até avião. Puxa vida, a viagem de Minuano e depois o Húngaro, eram marcantes. Serviço de bordo, conforto, pontualidade e poder relembrar as viagens de trem comum com a famosa parada para a sopa em Cacequi. Quando terminei os exames para a Escola Preparatória em 68, voltei com o pai no horário das 13 horas, locomotiva 1313, no dia 13 de dezembro. Não deu outra: passei concorrendo com 220 candidatos por vaga.
Gostaria muito de fazer um breve estudo de viabilidade para a volta do Húngaro com aquele serviço de catering semelhante ao dos aviões. Antigamente, é claro, pois hoje são somente barras de cereais e bebidas servidas. Sem fantasias de Trem-bala. Mas eram 12 horas de Livramento-Porto Alegre e viceversa fortemente atacados pela velocidade dos ônibus da Ouro e Prata.
De avião era época da Cruzeiro e Varig, é claro, nos aviões DC 3 descendo galhardamente no Aeroporto dos Galpões. Oigaletê. Mais tarde passaram a operar os Bandeirante. O que houve?
Cada viagem a Porto Alegre era uma estória e quem as viveu sabe.
Livramento-Porto Alegre via terrestre deixou de passar por Don Pedrito/Bajé com o asfaltamento da 153/290 e o espírito rodoviário , que no Brasil detonou os outros meios de transporte mais econômicos e propulsores de progresso, fez-se sentir na humilde linha Livramento-Porto Alegre. A concorrência entre os meios de transporte foi aos poucos deixando de existir inviabilizando a escolha por parte doa usuários.
Como gostaria de ir, nem que fosse de vez em quando, de avião para Livramento, ver os Quero-quero correndo da pista, o barulho do balastro com o atrito dos freios da aeronave e a vista da campanha lá daquela área. Até o EC 14 de Julho já foi a São Gabriel de avião!!! Assim também descer na estação de tem ainda sentindo no nariz o cheiro da fumaça das Marias Fumaça que porventura ali tivessem passado.
Sei que tudo evolui e que ninguém, de sã consciência, vai rasgar dinheiro.
Sei que existem incontáveis interesses legais, comerciais  e ilegais para modificação da situação. As empresas privadas estão aí e donas das linhas de carga e de passageiros não estão nem aí para a perda de lucro e retorno do investimento. O caso é que, nesta cauda da história, valemos menos do que um quilo de cereal para fins de transporte. E aí...
Para deixar todos com a pulga atrás da orelha existe o interesse estratégico militar atualmente não considerado, mas o caso Bolívia.....
Porto Alegre, RS, Maio 2006

FLAVIO MPINTO
Enviado por FLAVIO MPINTO em 12/05/2006
Reeditado em 12/05/2006
Código do texto: T154829

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Sobre o autor
FLAVIO MPINTO
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 65 anos
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FLAVIO MPINTO