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Hoje eu vou pagar todas as minhas dívidas

Hoje eu decidi que nenhuma dívida que eu tenho vai ficar sem pagamento. Mas são tantas? Como vou fazer?
Procurei a Maria pra pagar pra ela a caixa de cerveja que eu apostei quando ainda viajava no ônibus de estudantes para a faculdade. Apostei que o Olívio ganhava do Britto em 1994 e perdi. O Britto foi governador. Não paguei a Maria. De raiva.
Hoje eu fui na casa dela. Já tá coroa, perdeu aquele viço que tinha em 1994, embora, olhando assim, sei lá, encarava legal. Ela era mais velha que eu, mas era cabeça, muito gata e eu queria namorar ela. Mas não rolou nada. Eu era muito garoto pra ela. Agora ela tá muito coroa pra mim. De repente eu até tentava cantar ela, só para dar vazão a um sentimento reprimido, mal resolvido no passado. Mas não tem nada a ver.
- Pô, tu ainda te lembra daquela aposta?
- Lembro, e hoje resolvi te pagar. Brahma Extra. Da boa.
- Tu é esquisito mesmo Guto. Porque não me pagou naquela época?
- Coisa de guri bobo, imaturo. Fiquei brabo porque o Olívio perdeu. Não ia pagar pra ti comemorar a vitória do Britto às minhas custas. Desonrei a palavra. Mas evoluí. Estou me redimindo.
Quase disse pra ela que eu morria de vontade de namorar ela. Achei melhor ela morrer sem saber disso. Deixei o engradado de cerveja lá e me fui direto pro meu serviço, atrás da Luciane. Já tinha passado no shopping e comprado o presente dela.
- Oi Luciane, lembra daquela vez, logo que você chegou aqui e me disse, um dia, que estava de aniversário e que colecionava bruxinhas?
- Lembro mais ou menos Augusto. Isso foi em...
- Setembro de 2002, lembro bem. Foi quando minha cadela morreu de cinomose, coitada. Se foi em meus braços. Horrível. Até chorei, sabe. Mas não foi pra falar da Solidão que eu vim aqui. Sabe, eu naquele dia te prometi que ia comprar uma bruxinha numa lojinha de presentes e não fiz. Lembra?
- Isso eu lembro.
- Pois é Luciane, eu vim aqui hoje te dar aquela bruxinha. Acabei de comprar no shopping. Toma. Gostou?
- Puxa Augusto, por essa eu não esperava. O que te deu na cabeça?
- É que hoje eu resolvi pagar todas as minhas dívidas. Agora estou quites com você. Tchau.
Dali fui direto pra casa do irmão do Ronaldo. Perguntei o número do telefone celular dele e liguei. Ele tá morando em Torres.
- Daí cara, como vai? É o Augustinho, lembra?
- Poxa, faz tempo Augustinho.
- É, faz tempo. Se lembra quando eu fiz um serviço nos dentes contigo e acabei não te pagando?
- Lembro.
- Pois daí cara, dá o valor e o número da tua conta que eu vou te pagar.
- Puta que pariu cara, isso foi no tempo que eu atendia pro sindicato. Faz uns 10 anos isso.
- É isso aí cara, mas eu vou te pagar. Calcula aí um valor, por cima, que eu vou depositar agora mesmo no banco. Pode cobrar juros e correção que não dá nada.
- Tá. Agora?
- Agora! Dez anos de atraso, não pode esperar mais. Olha cara, não foi sacanagem minha viu. Tu saiu do sindicato e eu não te achei mais.
- Tudo bem Augustinho. Não esquenta.
- Sabe Ronaldo, te vi no jornal esses dias. Tá famoso cara! Surfando muito?
- Aquilo foi uma matéria dessas de verão que a Zero Hora faz. Não é nada . É passatempo. Mas continuo.
Acabei de sair do banco. Já paguei o Ronaldo. Fui pra casa do pai.
- Pai, te lembra quando eu era guri e tu me mandou uma vez no mercado e eu perdi cinquenta cruzeiros que tu me deu?
- Como é que é?
- Olha pai, toma aqui cinquenta reais. É por aquela.
- O que que te deu guri? Tá banzo?
- É que eu resolvi pagar todas as minhas dívidas antigas hoje. Tchau véio.
Eu saí e ele ficou me olhando, sei lá pensando o que de mim. Meu pai é um cara legal.
Agora eu tinha uma dívida emocional para pagar. Me lembrei da Dona Antonieta. Fiquei com vergonha. Consciência pesada adormecida. Acorda sempre que eu penso nela. Eu ofendi a velha, quando eu era jovem. Botei a boca nela. Será que ela ainda mora na mesma casa? Chego lá e bato palmas na frente. Uma mulher vem me atender.
- Oi, é aqui que mora a Dona Antonieta?
- O que você quer com ela?
- Fui aluno dela na oitava série. Passei por aqui e resolvi dar um alô.
- Ah, tá bom. Só que não vai dar. A mãe morreu ano passado.
- Morreu é? Lamento. Desculpe ter incomodado.
- Não tem problema. Qual é o seu nome?
- Luis Alfredo. Tchau.
Menti pra mulher. Vai ver a Dona Antonieta podia ter falado mal de mim pra ela. Preferi evitar o constrangimento. Fui até o cemitério. Perguntei pro zelador se ele sabia o túmulo da professora Antonieta. Ele me disse onde era. Fui até lá. Bonito o túmulo dela, todo de mármore branco, cheio de letreiros metálicos e ornamentos. Tinha uma foto dela, só que bem jovem. Veja só, até que a Dona Antonieta era bem bonita quando moça. Rezei uma Ave Maria pra ela e pedi desculpas. Falei que eu senti muita vergonha por ter sido mal educado com ela naquele dia. Estava sinceramente arrependido. Senti um alívio. Acho que ela entendeu e me perdoou. Fui embora.
Cristiana! Ah, Cristiana! Vivia correndo atrás de mim. Que gata! Queria namorar comigo e eu, num arroubo de honradez, não transei com ela. Vi que ela tava apaixonada e preferi não estimular. Imagina se a gente transa e ela se engata mais em mim? Sei que até psicólogo a mina procurou por causa disso. Veja, tenho no meu currículo uma gata que foi ao psicólogo por minha causa, de dor de amor não correspondido! Não é pra qualquer um! Ainda mais a Cristiana, que é uma gata. Até hoje ela passa por mim e um dos meus amigos comenta. “Olha só, essa gata aí queria porque queria transar com o Augustinho e ele não comeu ela. Mas que otário babaca., Se fosse comigo!” A Cristiana continua bonita. É aquela história do vinho que envelhece e fica melhor, sabe?
Pra Cristiana eu vou ficar devendo. Não vou lá transar com ela. Pretensioso eu, né? Quem disse que ela ainda iria querer transar comigo? Quer! Pior que ainda quer! Eu vejo isso nos olhos dela . Olhar de quem tá a fim. Quem sabe até por orgulho ferido? Vou lá e vou transar. Tenho certeza que tá na mão. Transo e ela se decepciona depois: “Puxa, era só isso o Augustinho? Como fui boba!” Mas vai que ela se apaixona de novo. Não, não vou lá. Meu amigo tem razão, ainda continuo um babaca otário. Assumo. A Cristiana eu não pego, melhor, não pago. É muito arriscado emocionalmente. Já bastaram os anos de consciência pesada pela Dona Antonieta.
Sandra. Sandrinha. Linda. Meu grande amor platônico. Linda mesmo! Loira, cabelos longos e lisos, olhos azuis. Ufa! Colega de Universidade. Foi pro exterior. Vou pedir uma licença prêmio e viajar atrás dela. Aqueles olhos azuis valem.
Mas é muita loucura! Coisa de cara destrambelhado. Tô nem aí. “Tudo vale a pena, quando alma não é pequena”. Sempre quis conhecer a Europa mesmo. Agora que eu tô com grana. Além do mais, ela tinha interesse por mim. Depois de muito tempo eu fui saber, pois a Carla, amiga dela, me contou que ela me achava super interessante, um cara diferente, muito inteligente, sensível, íntegro. Viu, ganhei a gata só na virtude! Só que eu me intimidei com ela, tava muito apaixonado e não me abri. Ela também não. Vocês acreditam numa coisa dessas?
Vou lá. Tô com a grana mesmo. Ela dava os ares da Débora Blando. Ah Sandra. Parecia um anjo de tão bela! Era poetisa. Fazia poesia. Sempre adorei poetisa, ainda mais como ela, de peixes, bem doidivanas, sonhadora. Puta, a Sandra me deixou de quatro! Será que ela ainda escreve aquelas poesias? Será que ainda é poetisa? Será que ainda faz poesias bucólicas sobre os sentimentos dos seios? Ah Sandra, eu me lembro que você me mostrou essa poesia depois que eu insisti muito pra ler. Depois queimou na minha frente. Quanto orgulho! Eu, Augustinho, única testemunha da poesia bucólico-erótica da Sandra! E nunca tinha falado isso pra ninguém. Hoje foi a primeira vez.
Hoje eu vou pagar todas as minhas dívidas. Vou pra Europa atrás da Sandra. Não tô nem aí. Tô com a grana mesmo. E sempre quis conhecer a Europa.
Não vai dar pra ser hoje mas, de todo jeito, a decisão foi tomada hoje.
Fui.
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 14/05/2006
Reeditado em 22/04/2008
Código do texto: T155724
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
João Adolfo Guerreiro
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