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Rosa Pena

O massacre do Carandiru foi, é e sempre será uma vergonha nacional. Uma mancha na história nacional. Uma barbárie.
Sou radicalmente contra qualquer força de repressão que se acha com licença para matar sem pudores.
Sou, portanto, efetivamente uma defensora dos direitos humanos em sua totalidade.
A senhora Aury Maria Canto, aposentada pelo INSS, de setenta anos, faleceu. Ela foi vítima dos ataques aos ônibus na “segunda-feira sem lei”, no Rio de Janeiro. Foi queimada viva (em janeiro de 2003).
Rosa Pena foi rendida e teve seu Fiat, com pneus gastos, roubado. Ela foi vítima de alguma “terça-feira sem lei” no Rio de Janeiro.
Antonio Pena foi rendido na porta de sua residência e teve seu carro roubado por policiais à paisana, talvez numa sexta...
Gabriela, de 16 anos, foi morta no metrô carioca. Precisa do dia?
Plantonistas defensores de alguns, “apenas” de alguns, direitos humanos, estão em franca discussão e preocupação, com a retirada de algumas regalias de detentos nas penitenciárias, como, por exemplo, a suspensão de visitas dos familiares, aos domingos.
Ana Carolina Pena foi assaltada na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, às dez horas da manhã. Levaram seu cordão de ouro, de valor apenas estimativo, e sua autoconfiança, de valor inestimável.
O jornalista Fernando Villela de Andrade Neto (Fervil) foi assassinado brutalmente em tentativa de assalto.
Não dá para enumerar os fatos. Renderiam milhares de folhas.
O coração de Antonio Pena sofreu um baque, ao sair do enterro do Fervil.
Baqueou por quê?
Tem casa própria, tem família, tem carro. Tem tudo, né? Tem direito a ter direitos humanos?
Nós, enquanto população, aplaudimos medidas de segurança e nos atrevemos a pedir reforços; ouvimos, como resposta deles, que estamos querendo novos massacres. Queremos matar os pobres, exterminar favelados. Ah! Viramos burros. Não sabemos mais a diferença entre pobreza e marginalidade.
É óbvio que não queremos sangue algum. Sangue de ninguém, que fique claro.
Devolvemos nossos revólveres conforme solicitação das autoridades e apelo dos pacifistas dos direitos humanos, não dos nossos direitos, pois quem tem casa e comida é responsável pela miséria da pátria amada e perde qualquer direito. Que se morra calado, pois tem sorte de morrer de barriga cheia.
É assim que funciona, autoridades dos direitos humanos?
Já que nenhum de nós sabe atirar e sequer tem coragem. Somos os primeiros a querer paz.
A estes plantonistas paternalistas, vai uma pergunta, já com a pronta resposta. Afinal, o que é barbárie?
Barbárie é tortura em presídios, mas é também ser queimada viva, é viver de forma totalmente neurótica nesta cidade outrora maravilhosa.
Barbárie é um rapaz de trinta anos morrer por ter conseguido estudar, trabalhar e comprar um carro.
Barbárie é condenar uma jovem de vinte anos a viver com medo de abrir uma janela.
Recapitulando:
Meu carro foi achado, minha vontade de dirigir não.
Ana Carolina tem pavor de sair de casa.
Fernando foi enterrado e seus parentes continuam em estado de choque.
Antonio Pena, se bobear, será mais um safenado carioca.
Minha cidadania desapareceu, meu riso foi seqüestrado.
O Rio de Janeiro?
Quem ????????O Rio?????
Não consigo ouvir a pergunta. Espera parar o tiroteio.


“É moda relativizar a nossa já tão combalida declaração universal,
caduca em tempos de guerra.”
Arnaldo Bloch

2004
Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 08/05/2005
Reeditado em 07/09/2010
Código do texto: T15661
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Pena
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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33 e-livros (28998 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 00:32)
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