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SOLTE A FRANGA, MEU FILHO...

“Nada mais libertador do que rir de si mesmo
Idiotice é vital para a felicidade.
Gente chata essa que quer ser séria, profunda, visceral.”

Não sei se sou a pessoa mais certa para falar do assunto aí da frase. Não se trata de concordar ou discordar. Desfiar argumentos contra ou a favor de alguma coisa é uma tarefa até bastante simples. O problema é que argumentar é um processo meramente mental, racional que nada tem a ver com vivência, experiência da coisa sobre a qual se fala.  De qualquer forma, pensando bem, concluí que, mesmo não tendo muita vivência sobre o assunto, dá pra tomar uma posição a partir exatamente da minha falta de vivência. Acabo de crer que, justamente por não ter sido capaz de ser um pouco idiota na vida, acabei transformando o que deveria ser uma aventura em uma verdadeira tragédia grega.  E o mais interessante é que ao começar a escrever estava claro pra mim que hoje não era o dia pra isso: hoje estou  mais pra urubu que pra periquito. E por isso imaginei que não era a hora. Mas já que quando a gente muda de posição e olha as coisas de outro ponto, a paisagem se modifica, comecei a achar que um dia de urubu era exatamente o que eu precisava para escrever sobre a necessidade de sermos um pouco mais idiotas e um tanto menos sérios e profundos.
A verdade é que, à exceção de uns poucos sortudos, vamos todos crescendo naquela lenga-lenga de como é lindo ser responsável, sério, perfeccionista, maduro, equilibrado até a raiz de todos os cabelos que temos pelo corpo. Em resumo: como é lindo a gente ser um chato. Mais chato que celular de última geração, daqueles que a gente nem consegue encontrar. O celular. Porque chato é mais fácil de achar do que criança perdida em fim de festa de aniversário. E, como todo animal bem adestrado, a gente engrossa a fileira dos socialmente enquadrados (aliás, boa palavra essa...em quadrados) e emocionalmente desequilibrados. Ótimos para eventos sociais e para os comentários da galera, péssimos para nós mesmos.  Sem deixar de lembrar: grande clientela pra psiquiatra e afins.
A vida e os zumbis que perambulam por ela já se encarregam de tornar as coisas negras e chatas o suficiente: é a infinidade de contas a pagar, o salário de merreca que dá pra sobreviver quando se tem sorte, o pentelho que sempre tem no seu trabalho que dedica todos os minutos do dia para testar o seu QPVTM (que puta vontade de te matar), o trânsito  e por aí vai. E aí, os espertos que somos, não contentes com a grande oferta de chateações obscenas, resolvemos então olhar para a coisa toda e procurar cada pequeno detalhe sórdido que possa deixá-la tanto mais insuportável quanto nos seja conveniente.  Uma quedinha um tanto mórbida pela leitura das piores notícias do jornal, uma atençãozinha especial para ouvir a última miséria que andou acontecendo por perto, uma insistência torturante em procurar em algo quase perfeito que a gente fez, a imperfeição que fez o favor de estragar tudo.
Ora, pombas! Será que não dá pra de vez em quando soltar a franga (de acordo com a preferência de cada um), fazer alguma daquelas coisas que a gente olha com cara de superior e chama de infantilidade, roubar um pouco do tempo dos compromissos agendados e usar em prazeres não agendados (se for possível queimar a agenda, inclusive a  mental, melhor ainda),  rir das besteiras que a gente fala achando que está dizendo grandes verdades, enfim, largar o corpo e a mente por um tempo? Será que o mundo inteiro vai desabar se a gente resolver ser um pouquinho menos responsável, se a gente esquecer a coisa de se controlar o tempo todo, se a gente quebrar o protocolo?
Andei fazendo uma estatística meio por cima e descobri algo muito interessante:  todas as pessoas que algum dia me apreciaram e todas as que ainda gostam apontavam uma característica em comum que fazia com que se aproximassem de mim. Confesso que levei um baita susto. Pasmei: em noventa por cento dos casos, as  pessoas me achavam divertida e isso fazia de mim uma pessoa que elas gostassem  de ter por perto. Depois do pasmo inicial, tive foi uma baita crise de riso. Na maior parte do tempo sou uma chata que leva tudo muito a sério e encho a paciência de mim mesma e do resto do mundo com essa mania.
Por conta de tanta seriedade, perdi amigos, criei desafetos, estraguei relacionamentos (lógico, with a little help from my friends), arrumei uma baita depressão e uma conta de farmácia que não acaba nunca.  E o mundo ou a vida não melhoraram um milímetro por causa disso. E eu, claro, quebrei a cara o tempo todo.
Há milhares de historinhas de auto-ajuda e frases feitas, que a despeito de serem o que são, são também muito verdadeiras (aliás, também qual o problema de uma historinha piegas de vez em quando, uma frasezinha meio batida ou um clichezinho? ). Daí que resolvi, das muitas, tentar botar em prática pelo menos uma: se a vida te deu um limão, bota gelo, açúcar, cachaça e faça uma bela caipirinha. E tome um belo de um porre, meu amigo. Relaxe e goze. Literalmente também, de preferência. Chupe seus pirulitos, tome banho de chuva, fale sozinho, banque o doido de vez em quando. Mas viva. Que vida é pra ser vivida e não pra ser chorada
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 09/05/2005
Código do texto: T15781

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai

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