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A Torcedora

Branca Cristina é boa esposa, companheira, religiosa, comunicativa, mãe zelosa, porém, péssima torcedora.
Certo dia, ela foi acompanhar seus filhos gêmeos, que jogam futsal na equipe infantil  da UNESC, em Colatina, ES, pois eles tinham 13 anos.
No treino, que era só de chute a gol para melhorar a pontaria dos atacantes e a performance dos goleiros, a mulher torceu como se fosse o final de um campeonato. Depois de xingar o treinador, pensando que era o juiz, ela perguntou ao seu marido:
- Ué, meu bem, cadê a torcida do outro time?!
No final, os meninos reclamaram que passaram vergonha em campo, que pagaram mico e o pai lhes prometeu colocá-la a par do que acontece no decorrer das partidas.
E chegou o dia do jogo.
A quadra lotada, as equipes em formação, a torcida barulhenta como nunca e a mãe calada.
 Os times se respeitaram por um tempo, sem jogadas ousadas e sem fazer gols.
 Veio o primeiro gol da equipe adversária. Branca não se conteve e pulou junto com a torcida menor, já que estavam jogando em casa. O esposo entrou em ação e lhe explicou. A reação dos meninos foi gêmea e os olhares reprovaram a genitora em dobro. O pai deu-lhes um sinal de positivo e os tranqüilizou.
E veio o segundo gol contra. A alegria tomou conta novamente de Branca e ela gritou:
- Mereceu! Mereceu!
 E a cada chute mais forte, em qualquer direção, escutava-se:
- Valeu! Valeu!
Quando as torcidas emudeceram, ela pediu ao juiz que "cavasse" um pênalti, como se fosse ele que fizesse isso.
Até então, os gêmeos estavam no banco, como armas da equipe para reverter o quadro da derrota.
 Assim que entraram, só se ouvia uma voz:
- Dá show, Biel!!! Dá show Rafinha!!!
Mas eles perderam a concentração. Branca a-do-rou.
Feliz por ver os filhos jogando, soltou a voz,  sem perceber a tristeza das crianças.
Na outra semana, falaram com o pai:
- Vai ter um jogo importante e no último a mamãe aprontou demais. Até os nossos amigos notaram.  Por favor, papai, não fale com ela, está bom?
Mesmo achando aquilo muito triste, pois a gente se realiza vendo os filhos se destacarem e o sucesso deles é o nosso, também, a mãe foi proibida de se manifestar durante os jogos.
Os meninos foram de ônibus e o casal foi de carro, atrás, escondido.
O estádio da cidade vizinha estava com lotação completa.
O jogo começou bem.
Já no primeiro tempo, o time deles fez cinco gols e nem um pio da mãe.
Os irmãos entraram no segundo tempo dando muito trabalho ao time adversário e em dez minutos fizeram mais cinco gols.
 Em cada gol feito pela dupla, um gritinho tímido aparecia e aumentava gradativamente.
De um lado, a torcedora se segurando para não explodir e do outro os adversários humilhados pelos gêmeos miúdos, mas bons de bola.
Branca, depois do 13º gol, ordenou ao Biel:
- Vai  Pelé!!!
E ao Rafinha:
- Vai Zico e mostra aí o que é show de bola!!!
O time da casa, aborrecido, respondeu com pontapés. E quando acertaram um dos gêmeos, a boca da mulher tão fervorosa, candidata ao céu, sujou de vez. Ela xingou a mãe do juiz, os parentes dos gandulas e as torcidas .
Ao chegarem em casa, fizeram uma reunião de família.
Ficou decidido que, nos próximos jogos, levariam a mãe para a igreja, para rezar para que tudo dê certo, e os meninos iriam com o pai para a quadra.

Anna Célia Dias Curtinhas
Anna Célia
Enviado por Anna Célia em 09/05/2005
Código do texto: T15799

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Sobre a autora
Anna Célia
Vitória - Espírito Santo - Brasil, 70 anos
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1 e-livros (216 leituras)
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Anna Célia