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Eliseu do Rio

ELISEU DO RIO

Eliseu do Rio ainda come de marmita. E digo ainda para enfatizar, no tempo presente, um hábito pretérito tão antigo quanto os suspensórios dos macacões dos operários fabris. Àquele tempo, eram todos marmiteiros e, talvez, por extensão, getulistas, sendo estes, no entanto, marmiteiros por alcunha. Assim, apinhados nos trens da Central do Brasil, levavam a surrada vasilha de folha-de-flandres. Iam embrulhadas em jornal, envoltas em sacos plásticos ou, em situações mais favoráveis, em bolsas ( nada ) térmicas. Mas, à hora do almoço, era quase impossível não expô-las aos olhos curiosos dos amigos que inspecionavam-lhes o aspecto. Seu conteúdo permitia revelar o estado de penúria ou abastança; de orgulho, mas também, de vergonha. Carne, mormente bife, depunha a favor, especialmente se vinha acompanhada de outra iguaria qualquer; ovo depunha contra e, nesse caso, procurava desviar-se a um canto solitário. Contudo, para o amigo, nada disso vem ao caso. Para ele, comer de marmita é um ato de resistência. Posso mesmo imaginá-lo um Quixote pós-moderno lutando, não contra moinhos-de-vento que parecem monstros, mas contra os Fast Food que inundam a cidade e nos oferecem – a quilo – a comida reprocessada da véspera: a sobra reinventada. É a carne moída que vira ensopadinho, o bolinho de arroz encalhado e enriquecido com a vagem que fora salada e tantas outras engenharias que ocorrem nas misteriosas cozinhas dessas casas onde ocorre a insalubre alquimia da culinária que empaturram a tantos.
Eliseu come de marmita por opção e gosto. E não o revela como quem conta um segredo. Não. Faze-o em voz altissonante como quando canta um samba-canção no bar do Costa acompanhado pelo cavaquinho sempre em punho. E desce aos detalhes em sua arte de degustar um banquete preparado por suas próprias mãos. Trata-se de um gourmet de fino trato. Que ninguém o imagine arredio num canto, olhando em volta e comendo afobado. Pelo contrário, faz da marmita e de sua utilização um ritual. Mâitre de si mesmo, esmera-se nos cuidados. Uma toalha branca e cuidadosamente talhada por dona Fátima orna-lhe a mesa onde já repousam os talheres lustrosos, o prato de cerâmica e a taça de vinho – branco ou tinto – conforme a exigência do cardápio. Até um guardanapo de pano de límpida alvura cobre-lhe o colo à guisa de proteção e charme. No entanto, não se trata de requinte ou esnobismo gratuitos. Meu amigo sabe de onde veio e dos não raros obstáculos que precisou transpor para chegar ao escritório do Banco Central que lhe permitiu – graças a Deus – proibir às filhas – e neta – assistir a um filme que a ele não fora possível não ver. Meu velho amigo sabe que a vida é cara e, por isso, sabe também valorizá-la. Sabe que comer não é apenas matar a fome, mas hora sagrada, infelizmente, a tantos negada.
Eliseu come de marmita e anda de fusca porque a vida lhe basta e é seu único luxo. Para ele, estar com a família e com os amigos tem um paladar outro, e este ninguém lhe rouba o prazer de degustá-lo como se fosse o néctar dos deuses. Prazer, amigo!

                                                                                         Aldo Guerra
                                                                                        Vila Isabel, RJ.
Aldo Guerra
Enviado por Aldo Guerra em 20/05/2006
Código do texto: T159568
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Sobre o autor
Aldo Guerra
Rio das Ostras - Rio de Janeiro - Brasil, 60 anos
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Aldo Guerra