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SUBIR E DESCER II

SUBIR E DESCER II


Como foi gostoso subir. Revendo fotos, vejo em cada uma, um pedaço do caminhar pelos anos. A família, pessoas jovens, sorridentes. Os amigos e pessoas conhecidas. Lugares lindos, maravilhosos! O calor da jovialidade, as emoções repentinas sem finais trágicos. Tudo era bom. Preocupações? - Tirava-as de letra. Foi realmente um caminhar muito bom, brincadeiras muito boas, amizades lindas. E o tempo passava lentamente. Tudo bem, paro aqui. Foi só um lembrete a respeito da subida. Já dá para entender todo o seu trajeto.
Não sei o momento em que cheguei ao topo. Claro, quase ninguém tem essa preocupação ou se recorda do momento exato da chegada lá em cima.
Uma certeza, tenho entretanto: -Estou descendo!
Quando comecei a descer? - Não sei. Mas que estou descendo, estou.
Afirmaram que para descer “todos os santos” ajudam e que a subida é sempre mais penosa, cansativa. Sei lá. Parece ser o contrário.
Estou encontrando dificuldades para descer. São obstáculos visíveis, difíceis. As pedras de “ontem” são maiores, os espinhos da saudade machucam mais. Ao subir não vemos pegadas. Ao descer vamos parando, olhando e vendo adiante e atrás de nós as marcas dos pés.
Surgem emoções não tão fáceis de serem digeridas. Comovem e, como os espinhos, machucam mais.
Engraçado! O tempo passa. Tudo muda. Até a aparência se modifica. Os jovens de hoje parecem ser mais bonitos do que os de ontem. Os de hoje não usam chapéu. Os de ontem usavam. E quando algum parente falecia, colocavam o “fumo” no chapéu. Guardavam luto, alguns dias de silêncio respeitoso, ausência em certos lugares e distância de fatos alegres. O luto, preto, era a cor de vestidos e ternos. De fumo no chapéu a uma fitinha preta no braço da camisa e até a fitinha já bem menor presa com alfinete na camisa, surgiu assim a surpresa tão repentina! Não se pranteia mais como antigamente a ausência de algum amigo ou ente querido. Já fui em velório que mais parecia encontro social! Pensei até que estava participando do aniversário de alguém, vejam só que esquisito... E outra surpresa maior é quando entro nalgum cemitério após a última visita: - Vou vendo nomes de pessoas, de amigos que eu pensava estarem vivos ainda e falo baixinho: Falta de respeito! Por que não me avisaram? E vou visitando as lápides, amigo por amigo. Esse aqui, o Miguel, deve estar tomando sua cervejinha. Onde? - Não sei. Nalgum lugar no cosmos, talvez.
Sento numa delas, na beira do mármore e volto até ao meio da “descida”. Sim, quando lá estava, em algum momento após já estar descendo, pensei: - O que faço durante esse caminhar até o ponto final? A descida está sendo muito rápida e num determinado ponto vai ser acelerado o desgaste do corpo, da mente e o espírito vai querer sair logo da carcaça desgastada.
- Várias tentativas para encontrar uma estrada lateral e demorar mais um pouco aqui por cima, antes da chegada final. Mas o caminhar segue, a estrada é a mesma. Não há desvio. Não  surge  o  “fato novo”,  encravado no meu íntimo, ele não surge à tona. Sei que lá tem, não um, mas vários. Vejo os lados, busco um caminho lateral, insisto, mas os pés, firmes, seguem descendo e já percebo não muito longe a fralda do monte que subi.
- Fazer o que?
- Nada.
- Continuar a descida.

Karuk
Enviado por Karuk em 21/05/2006
Código do texto: T160006
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Sobre o autor
Karuk
São João Del Rei - Minas Gerais - Brasil, 76 anos
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