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Obra de Domingo

Ela começa como um tímido tum-tum. No início ela vagamente parece um delírio, mas logo se inclui nos meus suspiros oníricos (que convenhamos, aos Domingos, são extremamente importantes para nosso humor), se apodera de meus neurônios e o esperado acontece: eu acordo. Olho para o teto tentando imaginar onde eu estou: logo percebo que me encontro em estado de repouso (ou seja, deitado), como qualquer cidadão comum, em minha casa.

Bom... Logo olho para o relógio, e vejo estampado como um sorriso ameaçador: 07:00. Procuro em meus arquivos cerebrais a causa do meu despertar, e logo a minha resposta é encontrada - tum-tum. Ele voltou, mas dessa vez com um toque e intensidade muito maiores e dilacerantes. O que fazer? Enquanto eu pensava numa saída óbvia, eu percebi que tudo aquilo se tornou uma orquestra composta por duas marretas, e uma daquelas malditas serras que fazem aquele barulho - "inhaummm". Acalme-se - pensei. Não é o fim do mundo.

Só me restavam algumas opções. A primeira delas era ir lá ao apartamento vizinho e ironicamente perguntar se estavam reorganizando a coleção do Louvre em sua sala. Não. Seria uma conduta contrária aos princípios-básicos-e-morais-de-convivência-para-uma-boa-vizinhança. Outra delas era espertamente levantar, e tentar aproveitar ao máximo o meu dia - também não. Seria fácil demais.

A última e desesperadora opção, mas não menos importante, era ligar para meus amigos cronistas e organizar o MCOAD: Movimento Contra Obras Ameaçadoras no Domingo. Por que cronistas? Uhn... Eles detêm o poder da escrita... Podem deixar com uma pontinha de remorso o vizinho cruel que resolveu fazer sua obra no domingo, caso suas crônicas cheguem até ele. Não custa nada tentar (e que fique claro que eu sou totalmente contra a vingança...).

Vocês estão me achando um descompensado e revoltado? Não sou! Não posso bancar uma reforminha aqui em casa, mas não é esse o motivo pelo qual estou escrevendo esta crônica. Talvez pela necessidade de expressar este sentimento de amor às obras de domingo. Será o primeiro passo para uma nova Revolução? Será que o Jabour e o Veríssimo já pensaram nisso? Deviam pensar. Eles poderiam ser grãos-mestres do MCOAD. Poderíamos revolucionar o mundo, com nossos comentários super pertinentes. Já pensaram? Sairemos às ruas no domingo de manhã bem cedo, defendendo a causa.

O quê!? Que sair defendendo causa que nada. Cheguei a uma solução mais prática e abandonei o espírito de "la revolución": da próxima vez eu fecho a janelinha do banheiro e coloco tampões no ouvido. É ridículo, mas deve funcionar. Vou fazer isso agora e abandonar essa orquestra cuja melodia está saindo pelo meu banheiro. Boa idéia.
Lucas Peths
Enviado por Lucas Peths em 21/05/2006
Reeditado em 25/11/2007
Código do texto: T160042
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Lucas Peths
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil, 26 anos
35 textos (16319 leituras)
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Lucas Peths