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Crônica de uma morte adulterina.

               
                 Mal o dia amanheceu e portas e janelas se abriam, e todos saiam apavorados, aturdidos e assustados rumo ao Beco Sujo como assim era chamado um lodoso beco de fundo de quintais que instantaneamente estava tomado por uma multidão de curiosos: alguns deles trepados em muros e telhados pois queriam, a todo custo, assistir o desfecho de um inusitado fato alarmado de boca em boca e de rua em rua por alguns moleques que corriam apavorados gritando a todos pulmões:

                - O coroné Laudino morreu!
                - O coroné Laudino morreu!
                - O coroné está morto!

                - Eh... o descarado do velhote escafedeu mesmo! - foi como alguém, em meio à turba, falou próximo ao meu ouvido e ainda gargalhou zombeteando: - o safado do velhote morreu como bem queria: na safadeza. Dizem que ele está teso na cama de Aurora Vilela. É... Isto é que é uma morte das boas, não?

                Mais adiante alguém comentou em bom tom, que o coroné estava “nuzinho da silva”. Já um outro jurava que ele só estava de cuecas e, falas e mais falas ruim abastadamente a esmo.

                Era esta a pauta dos zunzuns, dos disse-que-disse e do alvoroço nas rodinhas dos desocupados. E tudo virava gozações e piadas maliciosas.
                Aurora Vilela era uma mulher que possuía  um caráter ilibado e jamais deveria estar envolvida entre as maldosas falácias que se espalhavam numa desenfreada imoralidade entre ela e a figura honrada do coroné, o qual juravam estar finado sobre os límpidos lençóis daquela mulher. Não havia como se acreditar sem ver, e para tal preferi ficar no meio do lodo do Beco Sujo à escuta, e à espera de uma prova cabal.

                Jamais se viu ali tamanho alvoroço, também... puderas: não era costumeiro se velar um defunto assim tão famoso, menos ainda na atabalhoada circunstância de uma suposta morte adulterina tal como se alardeava à rosa-dos-ventos.

                Um pandemônio fervilhou no Beco Sujo e em suas adjacências, e o povoado inteiro parou.

              - Que conversa louca, rapaz? - adverti ao sujeito que zombeteou no meu cangote, haja vista ser o coroné um indivíduo de respeito, de caráter e, a bem da verdade: até ali bem casado com sua esposa Adelina; e que merecia, mesmo se morto, um tratamento mais digno pelo povo do qual foi sempre seu protetor. Daí o meu descrédito por tamanho despautério: era ver para crer.

                À medida que o tempo passava aumentava mais e mais a comoção e o povo não parava de chegar ao Beco Sujo numa aguçada e frenética curiosidade  como que se divertindo com a desgraça alheia, pois tudo transcorria com gestos obscenos e falas desavergonhadas, de onde partiam risos e chacotas com os nomes do coroné e da venerável Aurora Vilela, formando assim uma diversão triste e deplorável.

                Os agravos só cessaram com a inesperada chegada da viúva Adelina em meia as suas copiosas lágrimas, o quê atestava quão intensa era a dor que irradiava em seu sofrido coração. Ela surgiu cabisbaixa e toda vestida de negro; de mãos postas no queixo e visão fixada no chão ao tempo em que balbuciava palavras sem nexo. Aproximava-se da multidão amparada por filhos e parentes, todos de olhos avermelhados, lacrimejados e de semblantes amarelos e marchavam tal qual um pelotão rumo ao corpo lívido do coroné Laudino que, frente às duras evidências, passei mesmo acreditar estar ele realmente teso sobre o incontestável cenário do adultério.

                De repente reinou o silêncio na multidão, pois todos queriam ouvir claramente o ríspido e inamável diálogo entre as duas personagens que blindavam o maior dos mistérios daquela fria e alvoroçada manhã interiorana.

               - Explique-me aqui, sua vadia: como foi que o meu marido foi morrer em cima de sua cama? Diga-me! Vamos! Fale-me sua vagabunda!

                Adelina bramia ululante e gesticulava descontroladamente. Ela parecia tomada por uma onda de ódio que invadia o seu doído pranto. Era um ódio pesado e distinguível no rancor de seus olhos encharcados de lágrimas e na pronuncia abrupta de suas palavras ofensivas e nos trejeitos pesarosos e carrancudos de suas trêmulas bochechas. Já Aurora Vilela a tudo ouvia pasmada e estática, com a visão arredia e indefinida e de olhar arisco; assombroso, e de aspecto amedrontado. Ela apenas se limitava a esbarrar a entrada de Adelina em sua casa, pois mantinha seus braços nus esticados entre a porta escancarada e nada respondia, apenas apelava pela presença do delegado, o qual juravam estar dormindo por ter pernoitado em diligências.

                - Não! Não matei ninguém! Deus é testemunha! – retrucou Aurora Vilela se defendendo em um tom quase que solene, momento em que a multidão desgovernada reascendia o fuzuê, e barulhosa se aproximava das duas mulheres.

              - Tire Deus dessa sua cachorrada! Você é uma assassina! Você matou o meu marido na safadeza! E, erguendo a mão direita deu-lhe um tapa no meio da cara satisfatoriamente dizendo: toma, toma sua vagabunda!

                Foi um deus-nos-acuda: as duas mulheres arremessaram-se uma contra a outra e se atracarem, mas alguns homens seguraram-nas tentando conte-las, ao que só foi possível quando alguns pedaços de suas vestes foram rasgados e expuseram seus seios nus. Havia uma agitação em todos os olhares, e as pessoas ali presentes se mexiam para colherem melhores ângulos e terem ampla visão daquela pândega, já, alguns, gozavam satisfatoriamente com suas insolências frente àquele deplorável quadro envolto à névoa daquela manhã de Sol brando na sonolenta Vila de Cipoaçu.

                Repentinamente eis que apareceu o senhor Antonio Feu, o delegado, que ainda sonolento vinha acompanhado do soldado Edivaldo, e ambos rasgavam vigorosamente a multidão exaltada.

                Alguém já havia chegado próximo ao corpo do coroné e retornara dizendo do seu estado real: que ele estava divinamente sóbrio; de boca e olhos fechados; de camisa aberta ao peito; de cinturão fivelado à cintura e calçado em botinas; que seus óculos e chapéu distavam alguns centímetros de um urinol sob a cama, ao quê, depois, se constatou ser parte incontestável do triste cenário.

                Seguindo os passos de Aurora Vilela que se parecia envergonhada, cabisbaixa e nervosa; e que esfregava suas mãos com um incontrolável desespero, nós nos adentramos enfileirados pelo  estreito corredor da casa e conduzimo-nos respeitosamente silenciosos pelo vislumbre do lugar e logo nos deparamos com o corpo desalmado do homem mais poderoso de Cipoaçu. O homem que ditava os destinos de uma comunidade e que decidia sobre tudo em sua volta: do arranjar uma parteira ao desjejum de um esfomeado. Lá estava ele com uma fisionomia perene de onde brotava um lânguido sorriso a escorregar por entre os lábios ainda róseos, o quê parecia indicar pouco sofrível com o feito, e..., nem parecia morto, parecia dormindo, tal como comentou o soldado Edivaldo em meio ao lamento soluçado da viúva e de seus filhos, que pasmados e brutalizados com a cena ali vista, se puseram a lastimar da irreparável desonra e da desnecessária vergonha que ora sentiam.
 
                Pela janela, escancarada para um roseiral florido, um feixe de luz sombrio atravessava a névoa e se estendia pelo piso úmido de chão-batido e subia pelos pés da cama indo clareava o peito seminu do corpo inanimado. Duas velas acesas sobre uns criados-mudos desprendiam no ar um odor funéreo e delatava a desolação do ambiente e, entorno às quatro paredes um pesado silêncio se quebrava com os tic-tacs de um relógio-cuco que calmamente pendulava e, também, com um tinido intermitente do sino da capela que soava pausadamente em tom grave, avisando, como de costume, o falecimento de alguém importante. Silêncio este que só foi extinto quando Adelina, com suas mãos postas à boca, olhava fixa e pesarosa para o rosto empalidecido sobre a cama e, assim ficou por um instante, como em estado de graça; como se nada via nem ouvia, e que parecia estar viajando em seus longínquos pensamentos, donde, porventura, rememorara os momentos de prazer vividos em suas restritas intimidades; e dos passeios de mãos dadas e de tantas e tantas outras doces e memoráveis lembranças que fluíam velozmente em sua mente tristonha, e que ao cair na estúpida realidade vista a olhos nus, sentia que sua pomposa vida transformara-se em dor e vergonha, e foi então que ela transfigurou-se, e cheia de ira pulou histericamente animalesca sobre o cadáver aos urros e socos gritando:

                - Seu canalha! Seu miserável! Seu desgraçado! Você me traia todo este tempo.  Quero que os urubus te dilacerem e que depois vá para o inferno!
 
                Todos se arrepiaram frente à tão imprória cena e, nesse ínterim, algumas mulheres que se acotovelavam no corredor da estreita moradia e que tinham a fama de excelentes cantadoras de velório, aproveitaram do êxtase e passaram a murmurar um canto lastimoso e lúgubre, no qual rogavam a salvação para aquela alma penada, assim entoando:
                        Piedade Senhor!
                        Por piedade livrai-o do fogo eterno.
                        Piedade Senhor!

                Enquanto isto a luz das velas piscava mortiças e a pequena casa de Aurora Vilela era tomada por dezenas de pessoas que instantaneamente queriam matar a curiosidade e visualmente registrar os instantes finais do semblante do coroné.

                Qualquer tomada de solução ali era indizível, e as perguntas fluíam aleatórias, como: onde será o velório? Quem vai vesti-lo? Cadê o padre? Quem fará o caixão?

                As respostas eram olhares vazios.

                De repente Aurora Vilela gritou:

                - Tirem este traste da minha casa. Tirem-no, senão eu o arrasto para o Beco Sujo!

                Adelina enrubesceu-se. E retirando-se do lugar deu-lhe as costas prazerozamente dizendo:

                - Já que você o desfrutou em vida, que fique com o que dele sobrou! Faça bom proveito!

                - Volte aqui Adelina. Escute-me: não sou mulher de desfrute e nem mulher à toa, estás me ouvindo?
     
                E mais um bate-boca instalou-se frente aos restos do coroné, o que foi prontamente extinto com a intervenção do delegado ao exigir respeito.
 
                - Calma, calma! É com calma que se resolve! - advertiu o soldado Edvaldo em meio ao desespero de Aurora Vilela que permanecia chorosa e gesticulante, enquanto apontava para o cadáver sobre sua cama, e exclamava:

             - Calma? Como ter calma com uma coisa desta? Não quero esta desgraça na minha vida. Eu não matei este cão, perguntem pra comadre Laíza que ela viu tudo. Eu tenho testemunha. Ela viu tudo! Eu não matei este traste e... antes o tivesse feito. Ele parecia endiabrado: correu; deu gritos e... pronto: morreu! Foi pros quintos dos infernos, entenderam? Querem saber mais? Pois bem: ele tentou me agarrar! Eu nem vi a hora que este maldito entrou na minha casa. Fui surpreendida.

             - Calma! Calma!  -  ponderou novamente Edvaldo, acrescentando: – o delegado está averiguando tudo tim-tim por tim-tim.

             - Conte outra história, sua cachorra! Você acha que ele morreu à toa?  -  gritou Adelina voltando apressada do quintal e aos berros indagava: como é que um homem bem-casado morre sobre a cama de uma mulher-dama, uma puta? Diga isso lá fora pro povo! Quem  vai acreditar em ti, sua maldita?

                Dessa vez não houve respeito: as duas se agarraram brutalmente furiosas e rolaram por sobre o cadáver, e um redemoinho de pânico envolveu a todos.

                Passado este momento de crucial excitação Adelina finalmente saiu da casa e se dirigiu ao Beco Sujo onde, por um instante, permaneceu cercada por curiosos que queriam mais explicações.

                Na casa de Aurora Vilela a inquietação era dominante e o povo se acotovelava nos mínimos espaços na ansiosa vontade de presenciar de tudo, de ouvir de tudo, de saber da roupa-suja que envolvia o coroné, que para alguns não passava de um malfeitor: que vivia a esconder a sua má reputação; que vivia a seduzir as mulher do lugar; que se fazia de benévolo mas que não passava de um salafrário, um ordinário, mas... para outros, era um santo homem: que só fazia o bem; que ajudava aos necessitados; que acolhia aos famintos e vestia os nus; que dava trabalho a pais de família e que tinha uma imensa legião de afilhados: prova incontestável de sua benevolência e popularidade.

                - Calma comadre Aurora. Calma que eu vi tudo!  Sou sua leal testemunha. Você não está só!  -  gritou uma mulher da multidão.

              - Quem está gritando ai fora?  - Interveio o delegado, saindo para o quintal.

              - Sou eu, Laíza, a vizinha de comadre Aurora. Quero lhe dizer, seu delegado, que ouvi uma gritaria horrorosa nesta casa e  vim averiguar. Entrei sorrateira e dei de cara com o coroné Laudino na cozinha, discutindo não sei o quê com a comadre Aurora. A comadre lhe dizia com voz baixa que pouco lhe devia e que a respeitasse, mas o coroné bramia que ela o pagaria de qualquer jeito.

                Adelina, lá fora no Beco Sujo, cortou o depoimento de Laiza, gritando:

                - Mas... Que jeito? Você é da mesma laia dela!

                - Calma, sinhá Adelina! Quero que me respeite! Aqui só direi o que vi e o quê ouvi, entendeu?

                 - Continue - disse o delegado.

                 - O coroné dizia que a comadre lhe pagasse a dívida nem que ela domisse no chão, e que, caso contrário, que ela lhe pagasse na própria cama. E foi nesse instante que a desgraceira se fez.

               - Que desgraceira?  -  inquiriu o delegado querendo mais detalhes  -   Exijo que a senhora conte toda verdade do que viu e  do que ouviu!

              - Ta bem, delegado! Foi assim: a discussão já estava muito fervorosa quando a comadre deu-lhe um tapa na cara e nesse instante os filhos dela partiram pra cima do coroné a socos e pontapés, e este, se sentindo em maus-lençóis, passou a correr por toda a casa. Ele entrou em desespero apanhando dos meninos e por fim adentraram-se no quarto e lá se atracaram. Os óculos dele caíram, e, sem nada enxergar, começou a tropeçar nas coisas e a derrubar tudo em sua volta, até mesmo o urinol que estava sob a cama foi chutado e saiu rodando pelo chão do quarto. De repente o coroné começou a dar uns gritos, eram gritos diferentes e agonizantes parecidos ao de uma grande dor e, por fim veio o silênciou.

                - Porquê a cama?  -  perguntou Antonio Feu.

                - A comadre lhe pediu como fiador na compra de uma cama, mas como ela ganha pouco com a pensão do falecido marido não pode pagar a última prestação. Todos sabem que o coroné sempre gostou de ajudar a todos de Cipoaçu, e foi por isso que ele morreu. O resto todos sabem.

                - Legítima defesa!  - disse alguém dali.

                - Sem dúvida, legítima defesa!  - foi como todos os presentes votaram uníssonos.

                - É.... Foi mesmo legítima defesa!  - concordou Antonio Feu, pondo fim no interrogarório.

                - E agora, delegado?  -  questionou Edvaldo -  Alguma ordem?

                - Nenhum! Apesar da legítima defesa, considero como morte natural.

                Adelina voltou para sua casa envolta a um aglomerado de parentes e amigos que compartilhavam da sua tristeza e ululantemente dizia: nunca mais quero lembrar desse traste. Acabou! Acabou!

                O dia transcorria moroso e o povo de Cipoaçú se acercava ao esquife que fora colocado em velório sob uma copada figueira que havia no centro do povoado.
           
                As cantadoras não cessavam com suas ladainhas e preces, e as badaladas dos sinos soavam da torre da capela cada vez mais entristecendo a todos.
         
                O pesado cenário entristecia Cipoaçu. Apenas os clamores dos presentes se faziam ser ouvidos à distancia e os comentários pareciam infindos.

                Ao entardecer o corpo do coroné foi conduzido a uma cova rasa, sem pompa e sem a sua família que o denegriu de adúltero.

                Apesar do tempo passado o seu nome ainda é vagamente lembrado pelo bem e pelo mau que praticou.













José Pedreira da Cruz
Enviado por José Pedreira da Cruz em 21/05/2006
Reeditado em 25/09/2010
Código do texto: T160224

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José Pedreira da Cruz
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José Pedreira da Cruz