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Coincidências

Não são somente coincidências. Deve ser algo mais. Você em casa, esperando aquele telefonema fundamental para o bom andamento do relacionamento. Seu coração palpitando. Uma arritmia tem início e você começa a suar frio. Está chegando. Você confere mais algumas vezes se o telefone funciona e o momento chega: eis que o telefone começa a emitir o seu doce som - "Trinnn". Você espera chamar cerca de duas vezes, afinal ela não pode saber que você está nesta ansiedade momentânea.

Está na hora de você usar as frases ensaiadas, as explicações, o seu caráter e todo o seu linguajar platônico acumulado até o ápice de seus vinte e quatro anos de idade. Você enxuga a voz e finalmente atende: Alôôôu?. Uma voz familiar se identifica do outro lado da linha. Não pode ser, mas - não é Ela. Quem ligaria numa hora tão crucial como essa? Quem teria essa ousadia? Adivinhem. A sua gloriosa e esplendorosa vizinha chata... Essa aí mesma, que tem a capacidade de ser inconveniente até quando não quer ser (ou parece não querer).

Num momento de vazio intenso, o ar de seus pulmões parece sumir, seu sangue parece talhar e você não enxerga mais nada. Só consegue pensar em uma única coisa, que não é tão pura, mas é a verdade: desliga logo essa porr* de telefone, sua chata! Você educadamente segue adiante com a conversa:

_ Sim?
_ Ainda bem que você atendeu! Precisava urgentemente falar com você!

Era o esperado. Interesse. Cabe a você, um mero mortal e cidadão apaixonado dar um fora sutil e depois resolver os pepinos alheios - primeiro os nossos. Segue:

_ Eu preciso urgente daquela receita de frango ao forno porque...

É a hora. Finalmente. O fora. Como fazer isso? Como dizer que essa receita está na sua família há séculos e é tão extensa que você precisaria de meia hora para proclamá-la? Como dizer que você não sabe fazer nem macarrão instantâneo e nem imagina onde a receita se encontra?

_ Olha é que minha...
_ Eu juro que não vou incomodar! É caso de vida ou morte, por favor!

Um pensamento ainda mais cruel passa pela nossa cabeça - você já está incomodando. Já que a carapuça não serviu, vamos tentar driblar a situação com um pouco menos de sutileza:

_Fulana, olha, agora eu realmente não...
_ Não? Como não? Não o quê? - ela diz já em tom nervoso e suplicante.

Enquanto isso você só tem a cabeça em uma única pessoa. Ela. Sua conversa com a criatura amada deixou de ser mera necessidade. Passou a ser honra.

Já chega. Vamos apelar. Usaremos uma daquelas super táticas que circulam na Internet contra operadores de telemarketing. Se funcionam com operadores de telemarketing, uma sub-espécie de humanos incrivelmente chatos, funcionam também com sua vizinha. Ou não. Depende da vizinha. E do operador de telemarketing.

_ Me desculpe, mas o responsável pela casa não está. Essa é uma gravação, por favor, não responda - eis a tática mais manjada.
_ Hei! Não adianta! Eu sei que você está aí! Responda! É coisinha boba! Alô? Alô? A-háá! Eu ouço sua respiração. Não tente me enganar - ela diz, em tom superior.

De certa forma talvez ela seja muito mais superior do que eu. Ela é insistente. E chata. Imagino quando ela quer alcançar algum objetivo maior. Ela deve ser tão chata quanto espinhas bem no meio de sua testa. E olha que espinhas são realmente perversas.

Não posso me render assim tão facilmente. Vizinhas não têm esse poder de persuasão. Busco no fundo da minha mente entre algumas crônicas e idéias, a última gota da força de vontade para usá-la contra essa força exterior. Abro gavetas e gavetas de arquivos em minha massa cinzenta. Num momento de um quase orgasmo, eu páro, atordoado. A lâmpada surgira na minha cabeça (sim, a mesma dos desenhos, quando se tem uma idéia...). Eis que surge a mais brilhante e cruel idéia já imaginada naquele mês: eu encaminho lentamente o meu dedo ao telefone, com um ar de altivez. Vagarosamente eu pressiono meu indicador contra o botão "Power" do aparelho. Pronto. Ganhei. Mal educado, mas ganhei.
Lucas Peths
Enviado por Lucas Peths em 21/05/2006
Reeditado em 25/11/2007
Código do texto: T160394
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Lucas Peths
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil, 26 anos
35 textos (16314 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 04/12/16 08:26)
Lucas Peths