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Elogio aos sete pecados capitais: a ira

Se não fosse classificada como pecado capital, a ira poderia ser cultivada para instar o aumento da produtividade.
Há coisas tão chatas de serem feitas que somente a ira pode nos impulsionar a executá-las com menos pesar. Ou melhor, sem pesar algum porque sob influência da raiva ficamos tão entorpecidos de indignação que nem percebemos o quão chata é a tarefa. A cólera nos cega a tal ponto que não percebemos nem o tempo correr, o que é ótimo quando há pilhas de roupa para passar e acúmulo de desânimo a nos desestimular. Nessa circunstância, só uma situação como a raiva da vizinha fofoqueira pode dar conta das camisas amarrotadas do marido.
Ainda sobre a produtividade, no momento da raiva fabricamos tanta energia que se não a utilizarmos para desenvolver coisas boas, ela se voltará contra nós, fazendo-nos mal. Doenças como úlcera, câncer e problemas cardiovasculares podem ser resultado de fúria contida, enlatada e fermentada.
Além de proveitosa, a ira também pode ser um alívio. É verdade. No momento de ódio nos permitimos soltar palavrões. O verbo é soltar mesmo. Por menos educado que possa parecer, nada como falar palavrão de vez em quando. Se forem de natureza sexual, melhor ainda. Menos repressão. Muitas vezes, retemos uma palavra feia apenas para parecermos educados e esconder nossa agressividade. E nos aprisionamos na etiqueta. Faz mal guardar essas coisas. Tudo bem que xingar nome feio diante de outras pessoas – principalmente se são pouco conhecidas -, deixa nossa imagem chamuscada, mas costumamos nos dominar tanto que, às vezes, até sozinhos contemos a palavra cabeluda. Então, a obscenidade fica presa na garganta, ricocheteia, fermenta e é engolida, parando no estômago. É aí que a ira decantada e em formato de palavrão pode se converter em úlcera.
E, quase pior ainda, se não usarmos a ira para o bem (passando roupa e coisas assim) e também não a conservarmos para nos causar doenças, a utilizamos para destruir as coisas. Em telenovelas e filmes sempre vemos uma ceninha assim: a personagem, possuída pela fúria e com sua razão afetada, acaba com vasos, porta-retratos, pratos, copos e tudo o mais que for quebrável, desconstruindo todo o cenário. Se o Sansão da Bíblia colocou abaixo tantos templos - e sua personagem no cinema tantos cenários -, calminho é que ele não devia estar. No mínimo, a Dalila o tirou do sério mandando-o pentear o cabelo ou cortar as unhas.
Numa análise mais abrangente, a ira é uma emoção que não poupa ninguém. Até os bichos são irados. Prova disso são as fêmeas que tentam defender sua prole. Infeliz daquele que tentar alguma proximidade com um filhote; a fêmea, que não se reprime - porque às vezes bicho é mais sabido que nós -, demostra toda energia animal que só a cólera é capaz de produzir. Com isso, percebo uma incoerência: se a ira foi distribuída irmamente ao reino animal, por que condenar o homem por sentir uma emoção comum a todos os animais se o diferencial entre o homem e os outros animais o serve de atenuante? Explicando: já que a ira é um estado no qual nossa consciência e racionalidade são abaladas e esses são os principais diferenciais entre o homem e os demais animais, parece-me que podemos nos sentir isentos desse pecado porque a civilização já aceitou que sob domínio da inconsciência e da irracionalidade tudo deve ser perdoado.
Tudo isso só para demonstrar que há coisas que nos transcendem. E, também, não nos é possível lutar contra a Biologia, que sempre tem autoridade. Parece-me um atraso de vida reprimir e não canalizar para coisas profícuas uma emoção que, obstante não podermos elegê-la, pode ser gerenciada de maneira positiva. Do mesmo modo, é importante admitir que não somos tão racionais como supõe nossa vaidade. Aceitar é libertador.
Carmem Lúcia
Enviado por Carmem Lúcia em 10/05/2005
Reeditado em 10/05/2005
Código do texto: T16053
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Sobre a autora
Carmem Lúcia
São Paulo - São Paulo - Brasil
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