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UM QUARTETO AFINADO

Já éramos lembranças... O cheiro do tinto vinho e a reverberação da Nona Sinfonia de Beethoven numa interpretação muito particular do maestro Maximianno Cobra reacendiam o presente com o encantamento da véspera.

Cheiro de folhas desgarrando. O jovem jornalista, Jackson Sarda, exclamou uma lembrança. Por quê outono? A lembrança debutava na época da inocência. O menino percebia o amor nas romanceadas narrativas, desejava-o com a fome dos adolescentes, mas se continha no olhar tímido. O amor amadurecia nos galhos, ventava as emoções e dava chão aos passos dos primeiros desejos. Cheiro de folhas, uma carta lacrada para o primeiro amor, um poema nunca escrito, as mãos desfolhando um adeus...

Jasmim. Luna Remer, pianista e compositora, falou com um sorriso doce. O natal na casa do avô. Toda a família se reunia no salão do piano. O avô adorava música, mas nenhum dos filhos tinha talento. O piano estava ali, as pequenas mãos da menina ousaram deslizar nas teclas e encontraram o território para dedilhar o mundo. Cheiro de jasmim, lembrança exótica das descobertas infantis. Seus olhos brilharam no encontro de uma nova composição: Jasmim.

Figurinos poloneses. Quando a companhia polonesa chegou ao teatro e abriu os baús, um cheiro misterioso e forte impregnou nos bastidores. O cantor lírico Ivo Lessa, tenor, descreve o cheiro personificado, tateia no vazio dando forma à incorpórea presença. Anos depois, ao chegar em Cracóvia para uma apresentação, sem falar uma palavra em polonês, logo encontrou o cheiro no saguão, acenando o reencontro, e conviveu com a lembrança nas ruas e nos teatros numa realidade marcada de impressões idealizadas.

Maresia. O salgado aroma que sustentava meus sonhos infantis. Um cheiro recorrente que me revela o prazer de desvendar o amanhã, quando os dias se renovam e anoitecem com novas percepções. A lembrança das noites abertas na janela para um céu estrelado. Tempo brincando de ir e vir nas marolas da juventude... Hoje sinto a maresia nos horizontes, em terra firme, distanciada dos portos inaugurais, represo o mar que insiste em agitar os anseios.

Os cheiros ganham corpos nas rubras recordações. A apresentação do dvd com a Nona Sinfonia de Beethoven executada pela Orquestra e Coro Europa Philharmonia Budapest, regida por Maximianno Cobra, é uma percepção presente para o quarteto. Com o tempo restaurado, o maestro perverte a interpretação usual e desvela o tempo da época do compositor. Tempo lento... Tempo suspenso... O final com o coro em Ode à alegria entranha na pele, preenche o corpo com o som de cada instrumento, de cada voz, e inaugura um novo significado para alegria nas almas rendidas à grandiosidade da música.

A Nona Sinfonia de Beethoven se renova como um vestígio futuro a nortear os silêncios e as linguagens da memória.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 22/05/2006
Reeditado em 22/05/2006
Código do texto: T160755
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
614 textos (789823 leituras)
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Helena Sut

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