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O dia em que meu anjo caiu do altar

Fazia um bom tempo que admirava aquele anjo.
Com roupas maltrapilhas, andar vagaroso, parecia muito cansado. Da vida, dos maltratos, dos erros cometidos, da desgraça. Mas nada fazia porque era anjo. Sua sina era estar no altar, para que meus olhos o vissem.
E foi assim que sempre o vi.
Calado, com poucas palavras para mim. A menos que o meu coração pedisse. Nesse caso, quando algo mexia comigo, meu anjo, que nunca falava, se postava à minha frente e era como se eu o visse.
Olhar calmo, boca sorridente, pés descalços e com um livro nas mãos, saindo a pregar.
Muitas vezes eu o vi dessa forma. Um santo.
Como na história dos santos, meu anjo também sofrera as atrocidades dos humanos.
E era puro.
Por tantas vezes acreditei em meu anjo. Porque nada poderia demover-me da idéia de que fosse diferente do que meu coração via.
Um coração que tinha tanto conhecimento não poderia estar enganado.
Alguns momentos vi o rosto do meu anjo, carrancudo, pois estava de mal com a vida, porque ela trazia desgraça e sofrimento para as pessoas que, a seu ver, mereceriam estar no céu. A Terra parecia-lhe um lugar lúgubre, de desavenças e desamor.
Mas vi também seu sorriso simpático e que me dava a crença de que eu enveredara para o caminho do Paraíso.
Mesmo que faltassem muitos quilômetros a percorrer, sabia que meu anjo iria comigo ou, a me amparar;
E ia ele, com seu livro embaixo do braço. Como apoio às suas palavras.
Creio que em alguns poucos momentos, vi em seu olhar, algo que atentasse contra a minha crença em suas verdades.
Mas era tão passageiro, que no momento seguinte já cria, como se jamais tivesse duvidado de sua santidade.
Outras pessoas mortais teimavam em dizer que meu anjo tinha um lado do rosto que não era visível.
Não sabia ao certo o que isso representava. Talvez, pensei, fosse como a luz do Sol, que em certas horas se esconde, não deixando que todos o vissem como realmente era.
Ou como a Lua, que na sua grandeza, diminuía-se, para que outros crescessem em sua sombra.
Tudo era perfeito, simplesmente porque eu tinha um anjo.
Nem sei bem o que fiz, ou se foi meu anjo quem fez e, pior ainda, eu não sabia como não enxergar. E vi!
Meu anjo caiu do altar, bateu o rosto no chão e a porcelana se quebrou, deixando que eu visse, nítido como a luz do sol, tão claro como a noite mais clara de luar, a face que todos diziam oculta. Meu anjo era o demônio.
E, para meu desencanto, voou para bem longe, onde minha vista nunca mais pode alcançar.
Aqui pensando, eu ainda tento que meu anjo um dia ouça as minhas preces. Para que extirpe de seu rosto, aquele lado feio. Pois, muito alem do rosto, vi seu coração.
(Lara Cardoso)


Lara
Enviado por Lara em 10/05/2005
Código do texto: T16150
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Sobre a autora
Lara
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil, 61 anos
113 textos (9672 leituras)
3 e-livros (253 leituras)
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Lara