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FRENTE FRIA

Ela chega sem avisar numa segunda-feira. O friozinho das manhãs permanece num ar gélido que penetra no corpo e deixa os movimentos apressados. Insegurança. Nas janelas, rostos encobertos tentam desvendar a temperatura nos trajes dos transeuntes. Como em toda a pesquisa, a roupa é escolhida depois de muita percepção.

Os olhares mal cruzados buscam abrigo, ainda sonolentos, os corpos entrecortam-se na cinza calçada. Casacos, cheiro de mofo, naftalinas... O vento gelado transpassa o corpo e traz ao presente a memória corporal do contraste das estações. Os primeiros indícios do inverno marcam as faces com expressões mais rígidas e as mãos com movimentos mais lentos.

A frente fria domina os diálogos distraídos. Falar do tempo ganha sentido com a súbita queda de temperatura e abre alas para relatos de infecções, resfriados, pneumonias... Outros preferem exaltar as prevenções e descrevem o quadro clínico após a vacina da gripe, plantas medicinais, chás...

Os manequins trocam de roupa. As vitrines são novos cenários que causam estranhamento nos trajetos diários. As pessoas trocam de sonhos. Fevereiro na praia dá espaço para julho num chalé; a cerveja é trocada pelo tinto vinho, o sorvete pelo chocolate quente... Mudam humores, amores, receios, dores, como novos capítulos após conflitos exauridos.

Mas independentemente das estações, alguns caminhos permanecem. Idéias enraizadas não encolhem com a proximidade do gelo.

Atravesso a rua apressada. Corro contra o tempo, já que não vôo, e não rumo a lugares primaveris. Passo por todos os carros. Quase a salvo do trafego das manhãs, distraio-me e tropeço no meio-fio. Quase um tombo. As mãos geladas desgarram-se dos bolsos e buscam equilibrar o corpo desengonçado nos primeiros passos de encontro à calçada. Vergonha, fragilidade, desamparo...

Disfarço. Tento fingir que nada aconteceu. Estou ali, em pé, sã e salva dos perigos do trânsito, mas percebo que algo muito íntimo se desprendeu na queda. Encontro a sombra de um conto no meio do asfalto, um poema mal traçado quase na porta da banca de jornal, uma novela inacabada sob meus pés, um texto teatral sendo encenado pelas imagens pichadas no muro da outra calçada...

As tantas idéias abandonadas molham meus trajes como chuva de papel picado de jornais amanhecidos. Parece festa, comemoração de final de ano, gol em copa do mundo. Purpurinas esquecidas, as lembranças são quase tudo o que havia escrito em papéis dispersos guardados em gavetas de velhas notícias. Onde deixei os enredos que amadureceram, se hoje, nas cinzas da manhã, enfeitam os traços literários libertos à margem de um dia frio?

Permaneço imóvel. Quase uma estante a sustentar os pensamentos que não ousei mostrar ao mundo. Aos poucos, recolho as palavras, os personagens, os versos... Guardo-os sob o longo casaco de lã e entro num café curitibano para brindar com um chocolate com conhaque o inesperado reencontro com os meus labirintos.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 23/05/2006
Reeditado em 24/05/2006
Código do texto: T161639
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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