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SOU DE SIGNIFICADOS

Querem que eu conte meus anos. Fale da minha idade, como quem preenche relatório estatístico. Querem que diga meus anos para esboços ensaiados de espanto: “nossa nem parece...” Não! Me recuso! Quero contar é meus rebojos, minhas cavalgadas, meus entrelaços, minhas pescarias, meus braços, minhas embarcações, meus emaranhamentos, minhas pegadas, meus goles, minhas escavações... Minha boca se abrindo e minhas garras penetrando: isso é o que conta para falar de mim. Não faço essa conta como contabilista viciada em números. Aliás, nunca quis ser contabilista. Viciada, às vezes, só no que me dá sabor... Sou mais é da carne,  das palavras, da selvageria, das células, da nuvem, das cicatrizes, da lágrima, das lonjuras. Nunca fui de ficar sentada atrás da mesa refletindo as ações: Quanto custa? Quando chega? Que horas vem? Quem apóia?... Sou é de tomá-las! Todas as ações vêm para mim! Sou tanto, tanto...! Os números nada dizem de mim. Antes ocultam. Sou de significados profundos e escandalosos. Sou de sonhos ingênuos e medievais. Sou de tensões: antes, depois; em cima, nos lados; com gorduras, com regimes; em escuridões... E claro: as pré-mestruais. Sou de luas. Invento minhas fases, meus santos, meus dragões,  minhas expressões,  meus poetas. E eles sempre me obedecem... Sou de luas do rio amazonas: daquelas imensas, intensas e que clareiam e incendeiam as águas barrentas... Sou da lua que traz a pororoca... E como ser apenas número no meu uni-verso?! Sou além deles. Muito mais que finito e ordem crescente. Sou conjunto sem definição e nunca vazio. Não pertenço aquilo que nega meus sonhos e sempre pertencerei aos jardins pelos quais luto, mesmo que as vezes eu pareça sinal negativo diante deles... A verdade é que sou de sol quente. Meus significados são amazõnidas e delicados; barulhentos e semicerrados, explosivos e plangentes; cortantes e macios; enluarados e encharcados; flutuantes e milhares...  Milhares de volta em torno da estrela-da-manhã. Sou de iniciar. E, um dia, quem sabe, serei de infinitos...    
carla nobre
Enviado por carla nobre em 24/05/2006
Código do texto: T162167
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Sobre a autora
carla nobre
Macapá - Amapá - Brasil, 41 anos
41 textos (6849 leituras)
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carla nobre

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