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AGORA

Bastou que aquela porta se abrisse e eu vi o ônibus parando junto ao meio fio da calçada encimada por antigos Jacarandás. Era uma visão confusa, as imagens vinham também com sons e cheiros. A rua não tinha nome, nenhuma placa na minha memória... A imagem só ficou mais clara em close: Cristina saltou primeiro: muitos risos os nossos... Saltei. Saltaram também o Paulo e o Chuiti. Ela havia sentado junto a um canteiro e toda a sua atenção estava nos seus pés. Ouvi um Tchiiii, depois, Ruuuooonnnn... Senti o cheio da fumaça de óleo diesel e o bólido de cor avermelhada partindo atrás de mim, indo para a minha esquerda, não vi nenhuma estrela conhecida para adivinhar-lhe a direção...  A hora era de uma madrugada... De que noite? Outono? – Não, uma primavera! Os Jacarandás se enchiam de folhas claras, tenras: - Verde Veronense! Falou a professora de pintura, saltando de uma janela ainda mais longínqua...
Cristina levantou seu olhar, feito um luzeiro naquela noite, e depois o rosto na minha direção: sorria como ela só, um sorriso que dava vontade da gente beber... Estava com as sandálias na mão e falava qualquer coisa como OS pés doendo ou salto quebrado... A roupa ainda era de festa, mas vista assim sentada no canteiro era o vestido de uma menina travessa, livre como o ar daquela madrugada, que contornava as suas formas...
Eu já havia tirado o casaco fazia tempo. O nosso riso brotava ainda das observações daquela noite de pompa e circunstância na qual nos vimos envolvidos. Primeiro fôra o ambiente majestoso do Plaza São Rafael: quase uma semana de figurões engravatados: promotores do evento, mestres e PHDs, depois, o glamour do jantar de encerramento no Clube Cristal: nós parecendo patinhos-feios em meio a um desfile de ternos tamanho G,  penteados e aqueles vestidos, que de longe se vê que há um bando de “peruas” no ambiente, nem sempre de bom gosto; perfumes adocicados, gestos contidos e olhares de rapina na direção das “peruas” mais vistosas... Ficamos a um canto discreto onde haviam algumas mesas encostadas numa parede, a iluminação não agredia os olhos e, sentados nelas, pudemos tomar umas cervejinhas enquanto observávamos o desfile e o desdobrar dos discursos de encerramento alongados por egos inchados. Quando pensávamos que já ia para os finalmente, vinha lá outra homenagem ao doutor fulano-de-tal. O bando mantinha-se contido e cheio de finezas,  com finas taças de coquetéis e Martinis elegantemente presas entre dedos... Alguém deve ter dado um toque aos garçons, todos de branco, que talvez os discursos não demorassem mais muito tempo, porque uma pequena coluna deles começou a marchar em direção a enorme mesa, toda ornamentada, posta bem no centro do salão, carregando travessas de coisas coloridas que pareciam comida... De repente, surgiram alguns parecendo Cármens-Miranda com leitões assados  inteiros sobre as cabeças e, a julgar pelo tamanho, perus assados e ornados com frutas. Talvez por isso que muitas delas passaram também a flechar com seus olhares a mesa que se punha.
Cristina e eu já estávamos bem à vontade, eu adorava o seu riso gostoso que dava alma aos peitos dela ricamente valorizados pelo decote do vestido, quando encerraram tudo com uma salva de palmas que me pôs em pé. Um frenesi correu no ar da sala quando o anfitrião anunciou que o jantar estava servido.
Eu, que pensava em ir buscar um prato, segurei Cristina pelo braço e recuei, o Chuiti arrumava os óculos e os seus olhos pareciam maiores, Paulo olhou para mim e disse: - Pô!... E desatou a rir. Pedimos mais uma e voltamos a nos sentar nas mesas para termos certeza do que víamos:
Todas aquelas senhoras, tão bem vestidas, tão bem penteadas, tão bem perfumadas, lançaram-se para a mesa com tamanha veemência que parecia um bando de trogloditas disputando alimento para levar a uma prole faminta no interior de alguma caverna... Desvario, esbarrões e até discretas, porém eficientes, cotoveladas...
Eu sempre fui meio moleque nestas horas, mas a Cristina era só divertimento: ria à vontade, para o meu deleite, e balançava os pés no vazio da mesa feito uma criança; o Paulo erguia um brinde de cerveja para nós e ria muito, só o Chuiti ficou niponicamente mais contido, mas não deixou de fazer o “tim-tim” com um riso maroto, parecendo o traçado dos seus olhos...
Fomos os últimos a nos servir nos destroços, parecia que havíamos chegado atrasados num banquete do Obelix. Montamos um P.F. com o que havia, mas não deixamos de ri como quem está na primeira fila de uma comédia-pastelão...
Foi o Paulo quem atravessou a rua com a Cristina, que nos abanava com um par de sandálias na mão e nos mandava beijinhos, levando-a para dentro de um pesado portão de ferro engastado na parede de um sobrado escuro, ouvi quando ele se abriu e, depois, quando ele se fechou... Nele Cristina sumiu por vinte e sete anos...
Hoje, quando outra porta se abriu, reconheci aqueles olhos e aquele riso no rosto de uma mulher de nome Cristina Ramirez, amiga do meu amigo Paulo, na página dele na Internet.
Agora a vida está em suspense, esperando que se rompa a flor mágica da vida e Cristina volte à rua com a sua luz, com o seu sorriso e todas as histórias que só ela viveu atrás daquele pesado portão que se fechou numa noite de pura primavera...
Chico Steffanello
Enviado por Chico Steffanello em 24/05/2006
Código do texto: T162344

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Sobre o autor
Chico Steffanello
Sinop - Mato Grosso - Brasil, 58 anos
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