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               Bela bunda

                       Rosa Pena



A natureza não foi generosa com Rui. Ele não é horrível, é inexpressivo.
Na fisionomia, no andar, no jeito de falar, nas atitudes, no riso, no choro, na inteligência, em tudo, enfim, ele sempre passou despercebido. Nunca foi o principal, sempre o coadjuvante. Como se fosse uma couve em uma horta. Nunca ninguém fala da couve, exceto quando se vai fazer uma feijoada, mas, mesmo assim, não é prato principal.
Na juventude, o chamávamos de arroz-de-festa. Servia para nos acompanhar, para que não chegássemos sozinhas nos lugares. Convenhamos, isso é uma merda. 

Pois é, nunca perdi o contato com o Rui, mas também não posso chamá-lo de velho amigo. No máximo, de antigo conhecido. Nem percebi que ele envelheceu solteirão. Aliás, acho que ninguém. Nem sei se é solteirão, talvez seja. 

Bem, fiquei sabendo, por não sei quem, que ele aposentou-se, não sei da onde, e abriu uma loja de consertos de PC. Como meu micro vive dando zebra, e o seu Renato que conserta é um ladrão, resolvi saber da loja de eletrônica do Rui.
Entrei em uma que, com aquela cara, ele nunca me roubaria. Não teria know-how para fazê-lo. Descobri onde era e fui.
Encontrei-o atrás do balcão, com um sorriso que nunca tinha visto antes. Parecia muito feliz. Chamei-o, e ele pediu um instantinho, pois estava com a namorada.
Onde?, pensei eu, já que não tinha ninguém ali e ele não estava no telefone. Vi que era no micro, e ele rapidamente avisou-me que era em um chat.
Deu uma pausa na girlfriend e começou a falar comigo, entusiasmadíssimo. Estava namorando há dois anos a “Tigresa do Tibé”. Ele era o “Gavião”.
Bem, fiquei com vontade de rir, mas segurei as pontas ao perceber que aquilo era importantíssimo na vida dele. Rui havia achado um reinado. Finalmente, depois de cinqüenta anos de vida, ele era protagonista de uma situação. O tomate da salada. A carne do churrasco. Dera adeus aos seus tempos de couve e abobrinha. Ligadíssimo na net, mais ligado do que radinho de preso na cela. 

Então, pela primeira vez olhei-o como homem. Mulher é fogo! Basta saber que alguém se interessou para pensar!!!
Estranhamente, achei os lábios dele interessantes e imaginei como seria o beijo. Puts! Devo estar carente... ou não? 

Lembrei-me de uma festa em que ele me chamou para dançar e eu fui, sem saco algum, apenas por educação. Senti ele se chegando e pelo roçar percebi que estava excitado.
Adorei ter deixado o Rui daquela forma, só para ter a sensação de que eu era o máximo.
Tentei lembrar outros momentos nos quais ele estivesse envolvido, e em todos levou a pior.

Voltei ao presente e percebi que Rui estava falando com fluência, há bastante tempo. Eu havia perdido o rumo dessa prosa. Ele tinha dominado a situação, enquanto eu tinha viajado no tempo.
Só peguei o final: o valor da visita para ver meu micro. Valor abusivo, por sinal, que não combinava com o conceito que eu tinha dele. Ele não era um babaca?
A pressa de Rui em resolver única e exclusivamente o problema do meu PC deu-me uma sensação de inferioridade.
Puxa, achei que ele ia permanecer eternamente um bocó, como nos velhos tempos. Misto de timidez, excitação malresolvida e inexpressão.
Nada! Percebi que ele havia conseguido se administrar, e bem. Havia sublimado a fase impiedosamente narcisista da galera da juventude. Tinha se integrado a si mesmo e aprendido a se amar. Agora se gostava, e muito.
Não importa se o meio foi virtual ou não. Ele havia virado um falcão. Um falcão-coroa bem interessante.
Levantou-se, despedindo-se de mim, como se me mandasse embora, pois tinha que apanhar o filho. Pô... então ele teve um filho. Com quem??? Onde??? Nunca imaginaria isso!!! Eu, euzinha, por fora?
Ele definido, e eu com ar de interrogação.
O presente dele deve ser um ótimo presente, capaz de fazê-lo esquecer a titica do passado. O meu não se faz presente, leva-me em busca do passado.
Despedi-me e fui pensativa. 

Bela bunda tem o Rui, reparei hoje... Pena que trinta anos atrás a gente não olhava e nem valorizava bunda de homem. Senão... o destino da couve teria sido filé mignon.

2003


 LIVRO PreTextos/rosapena





Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 11/05/2005
Reeditado em 03/10/2008
Código do texto: T16283
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Pena
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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