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            Tempos adoráveis
                                                       aqueles...

     Por favor,  deixem-me escrever um pouco sobre o que, hoje, muitos consideram uma tremenda cafonice. Dou alguns exemplos: o flerte, o galanteio, a poesia de vates antigos, os velhos romances; e outras coisinhas mais que, de repente, poderão sair da minha inculta pena.
     Outro dia, voltando de ônibus para casa, ouvi um cidadão chamando os romances de Machado de Assis e de José de Alencar de romances ultrapassados; e a poesia de Gonçalves Dias, de Bilac, de Castro Alves e de Casimiro de Abreu de poesia demodê.
     Notando que ele não sabia de quem falava, preferi não contestá-lo. Não valia a pena provocar um bafafá a bordo do ônibus, ainda que para defender a boa leitura. Restou-me, dele apiedar-me.
     Mas vamos em frente. O flerte. "É coisa do passado", rosnavam vigorosos jovens, num barzinho que costumo frequentar, para espairecer. E, triunfantes, arrematavam: - "Flerte? Que qui é flerte.
     Embora com a língua coçando, decidi ficar em silêncio. Naquele ambiente, de acentuada efervescência etílica, não adiantava dizer-lhes que o flerte é um namorico à distância, mas muito gostoso.
     "Namoro à distância? Qualé?", assim seria enfrentado por eles e elas, naquele momento, com algumas "doses" na cuca. A meninada não sabia que também se pode "amar só com os olhos".
     O galanteio. É hoje visto como uma intolerável cafonice. Faz tempo que não ouço bons galanteadores; independente de sexo e idade.
     Graciliano Ramos, certa ocasião, escreveu para sua dileta Heloísa Medeiros, o seguinte: " Dizes que brevemente serás a metade de minha alma. A metade? Não: já agora és, não a metade, mas toda. Dou-te a alma inteira, deixa-me apenas uma pequena parte para que eu possa existir por algum tempo e adorar-te." 
     Hoje, aquele que ousar imitar o velho Graça não passa de um reles conquistador; de um paquerador cafona.
     Também será cafona quem recitar, para sua amada, estes versos de Castro Alves: "Ó! Diz-me, diz-me, que ainda posso um dia/ De teus lábios beber o mel dos céus;/ Que eu te direi, mulher dos meus amores:/ Amar-te ainda é melhor do que ser Deus!" 
     Dançar com o rostinho colado. "É coisa de sexagenário; da galera da terceira idade", ouvi isso, não sei onde, mas ouvi. E o indivíduo ainda objetava: "Dançar bolero? Tô fora, meu brother. Nada como um pagodinho; ou um arrocha."
     Caderninhos de poesias. Cultivava-os, com desvelo e obstinação, os brotinhos, no início dos anos 50. Em suas páginas, as meninas transcreviam, para curtir e sonhar, poemas e trovas de poetas famosos. 
     Uma quadrinha inocente, inteligente, sutil podia funcionar, na hora de uma declaração de amor...
     Esses caderninhos especiais, muitos deles guardando, por entre suas páginas, pétalas ressequidas de rosas cheirosas, obrigavam a rapaziada a ler. Todos queriam mostrar às suas namoradas que também conheciam os poetas que as encantavam. 
     Lindos tempos aqueles em que as meninas adormeciam lendo os romances de M.Delly!  Hoje, M.Delly será chamada de escritora cafona.
     Cadê o romantismo? O romantismo acabou? Machado de Assis dizia: "Não é que a poesia seja necessária aos costumes, mas pode dar-lhes graça."
     Se alguém achar esta crônica cafona, não hesite em rasgá-la. Não me sentirei injuriado. Afinal, eu sou, apenas, um sobrevivente de uma época em que a ternura não era confundida com a cafonice. Tempos adoráveis aqueles...
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 25/05/2006
Reeditado em 28/05/2014
Código do texto: T162865
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Felipe Jucá
Salvador - Bahia - Brasil
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Felipe Jucá

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