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Anestésico

De fato estamos todos anestesiados.

A TV, a internet, o rádio, a mídia impressa... Sabemos das revoltas nas cadeias em São Paulo, do ônibus que foi seqüestrado no Rio, do policial assassino de Brasília, dos meninos mortos em beagá, da bandidagem dos políticos, da idiotice do nosso presidente, da prostituição infantil, do preço do petróleo, do tráfico de órgãos, dos hackers de computador, da mortalidade infantil, das drogas, das armas, das escolas, dos hospitais.

Sabemos que as nossas crianças que vivem nos morros estão à disposição do tráfico, que temos policiais corruptos, sabemos das condições das nossas estradas e do perigo para nossos familiares caminhoneiros, sabemos que CPI é a sigla da moda, sabemos que a nossa saúde pública é caso de vida ou morte, que bandidos podem nos seqüestrar ao meio dia, que não temos rampas nos prédios, que não temos braile nos restaurantes, que não temos educação especial para os especiais. Sabemos de tudo isso.

Sabemos até o que aconteceu no dia 11 de setembro do outro lado do mundo. Sabemos que estamos destruindo a camada de ozônio e que teremos cada vez mais tragédias da natureza. Sabemos que temos pais alcoólatras bêbados pedófilos arruinando a vida dos nossos pequenos. Sabemos que temos depressivos suicidas pulando de janelas, que não chove a não sei quanto tempo em algumas colheitas e que a chuva acabou com outra plantação.

Sabemos que estamos acabando com nossas tribos e que a nossa floresta vira indústria de cimento. Sabemos da aids, do câncer, da hepatite, do estresse, da síndrome do pânico.

E estamos anestesiados. Estamos cegos, burros, surdos, débeis, idiotas, fracos, intocáveis.

Eu levanto todos os dias, saio de casa, sei que posso ser assaltada, vejo meninos de rua drogados, o trânsito ta uma bosta, a rua cheia de buraco, vou pro escritório, tomo um antidepressivo, almoço com medo da gripe aviária, tomo as drogas do regime, entro no elevador, vou pra casa, sei que posso levar um tiro, ajudo um cego a atravessar a rua, ouço na rádio uma palhaçada ministral, chego em casa, ligo a tv e penso que meu filho pode ser seqüestrado, desligo a tv e ligo o sistema de segurança, escuto um grito e penso que pode ser uma prostituta sendo estuprada, tomo um calmante e durmo. Pra acordar no dia seguinte. Todos os dias.
Carol Bahasi
Enviado por Carol Bahasi em 26/05/2006
Código do texto: T163509
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Sobre a autora
Carol Bahasi
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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Carol Bahasi