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Eu, me contradizendo. Ainda bem.

Em 21/05/06, publiquei no site “Recanto das Letras”, o texto “MSVT – Movimento dos Sem Vontade de Trabalhar”. Neste texto, fui um crítico árduo dos mendigos que pedem dinheiro em todos os cantos deste país. Disse, um tanto quanto enrustido, que a culpa era deles por não terem um emprego, que culpa era deles por não terem educação, que a culpa era deles por estarem ali pedindo esmola. Eu estava errado. A culpa não é deles. Dizem que a culpa é do governo. Mas não é só do governo. A culpa também é minha. A culpa também é sua, que está lendo mais este desabafo.

Sim, aquele texto foi um desabafo, algo que estava sentindo naquele momento. Principalmente por ter sido destratado por um “palhaço”. Mas a minha opinião é outra. A minha opinião, que advém do coração, proveniente da alma, com certeza é outra. Nos últimos dias, ouvi dizer que um advogado foi ao programa do Jô Soares, e disse que os pobres é que eram os bandidos deste país. E mais, ele disse que o “Marcola”, líder do PCC, era uma exceção, já que pertencia à classe média-alta, é graduado, e leu centenas de livros. Eu não vi a entrevista. Só soube da repercussão.Ouvi dizer que o auditório o vaiou naquele momento. Possivelmente, me vaiariam se lessem o que havia escrito também. Graças a Deus. Senhor advogado; saiba que os maiores bandidos deste país usam terno e gravata. Se forem advogados então, a probabilidade aumenta, e muito. Me processe, se quiser.

Especialistas em segurança pública asseguram que em locais bem iluminados, há menos incidência de crimes. Sugiro que coloquem holofotes, refletores e afins, sobre o congresso nacional, palácio do planalto, granja do torto, etc. Sugiro que coloquem nos escritórios de empresas também. Que coloquem em todo o recinto, em que haja pessoas trajando terno e gravata (fazendo uma meã-culpa, eu uso também, mas pertenço às exceções: sou honesto).

Advogados. Conheço alguns que são ótimas pessoas e ótimos profissionais. Os que não prestam, não conheço (e nem quero), só de vista. O advogado de Suzane Von Richtofen, por exemplo. Não presta. Nos últimos dias, conseguiu que a salafrária que planejou o assassinato dos próprios pais, respondesse pelo crime em liberdade. Talvez ele consiga que ela saia impune dessa. Afinal, é rica. Ele deve ter empanturrado o rabo de dinheiro também. Talvez, se ainda lhe reste alguma gotícula de consciência, demore um pouco para pegar no sono nos próximos dias. Ou talvez ele fique acordado, com medo que seus filhos façam algo com ele, devido ao exemplo que lhes deu. Em outras palavras, deve ser parente do cara que foi no Jô.

Agora vou fazer outra meã-culpa. Eu sou culpado por haver crianças nas ruas. Não por não lhes dar moedas, pois acho que isso não resolve o problema. Acho que quando contribuímos desta forma, apenas incentivamos que eles continuem pedindo. Porém, poucas vezes ajudei essas crianças, até por não saber como fazer. E pior, na maioria das vezes, fui indiferente. Pior que o descaso, é a indiferença. Viver em um mundo, usufruindo tudo que a natureza dispõe, sem pensar no próximo, nos menos desfavorecidos, é, no mínimo, mediocridade. Eu fui medíocre nestes anos todos. As únicas vezes que acho que contribuí de alguma maneira, foi quando lhes alimentei, ou quando conversei com eles, principalmente sobre educação. Algumas vezes, saí do meu pedestal de alguém que se julga mais importante, e passei alguns minutos conversando com estas crianças. Perguntei se estavam estudando, se já haviam aprendido a ler e escrever (não é contraditório fazer as duas perguntas, já que nem todo aluno que vai à escola neste país, aprende alguma coisa). Resumindo, tentei mostrar-lhes a importância de estudar, e que esta seria a única forma de eles saírem daquela situação. Mas não fiz o suficiente. Pior, acho que não consegui sequer convencê-los da importância de estudar.

Às vezes acho que este país não tem futuro (visão pessimista). Um tanto quanto paradoxal, para alguém que sempre ouviu que vive no país do futuro. Ê futuro que nunca chega!!! Outras vezes, acho que se começarmos a fazer as coisas certas a partir de agora, quem sabe daqui uns 30 anos, viveremos num país decente, em que possivelmente, meus netos possam desfrutar de alguma tranquilidade (visão otimista). Mas, para que isso se concretize, é iminente que passemos a tratar a educação como coisa séria. Não dá mais para postergar, pois já estamos muito atrasados. É necessário um pacto pela educação. E porque não, um pacto para o incentivo à leitura. Não importa quem governe, não se trata de eleição, pois este tema transcende 4, ou 8 anos. Se investirmos agora, colheremos apenas daqui a 15, 20 anos. O governo anterior, ampliou a presença de crianças na escola. Está na hora de fazê-las aprender. E ampliar o número de adolescentes nas escolas, já que são a matéria-prima do crime organizado, dos traficantes. As estatísticas comprovam que 50% dos jovens que têm de 16 a 25 anos não estão trabalhando. Nem estudando. Diminua este percentual, que o percentual de crimes também será diminuído. Bem, para um medíocre, indiferente, que anda sobre um pedestal, já falei muito sobre o que ainda não fiz. Espero que um dia eu possa escrever sobre algo que eu tenha feito de importante por estas crianças.

Ivan Sanches
ilsanches@gmail.com
Ivan Sanches
Enviado por Ivan Sanches em 28/05/2006
Reeditado em 28/05/2006
Código do texto: T164483

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Sobre o autor
Ivan Sanches
Santo André - São Paulo - Brasil, 34 anos
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