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Purgatório

O farol fechou e os carros vão se juntando enquanto o verde não abre. Meninos aproveitam para implorar a caridade em troca de alguma moeda, homens feitos oferecem todo tipo de bugiganga. Na calçada, ao longo daquela quadra, um bando de desocupados a jogar baralho e a negociar toda sorte de oportunidades.
São moradores dos casarões antigos nunca reclamados, que aos poucos foram sendo ocupados pelos excluídos, pelos sem teto, os mesmos freqüentadores dos pontos de cachaça, que são muitos, onde se afoga a mágoa, esquece-se a tristeza, gente de todo lado deste imenso país, desiludidos e iludidos, a apostar na sorte. É sexta feira, final do dia, trânsito infernal, farol demorado e conveniente à sorte dos pedintes.
As meninas moças se arrumam e se perfumam, tornam-se princesas ao romper da noite. Roupas e calçados comprados a bom preço nos camelôs do Braz, perfumes do “shopping Vinte e cinco”, colares peruanos e outras miçangas. Perfume que impõe distância a quem tem sensibilidade olfativa, mas que, de alguma forma, combate outros odores trazidos. Como diversão elas têm as “jukeboxes” máquinas de música instaladas nos melhores botecos da área e a paquera com seus parceiros de mesma sorte, nem sonham em sair do cortiço por que não conhecem outro jeito de vida, nele nasceram.
A molecada menor brinca de mocinho e bandido e imita direitinho a realidade em que vive, aos olhos atentos dos policiais que revistam os freqüentadores daquele pardieiro que é açougue, farmácia, mercearia, padaria e ponto de venda de produtos destinados a loucos, lazarentos, ex-detentos, homossexuais, prostitutas e dependentes.
Também tem uma velha oficina que foi ocupada pela Igreja Universal. Lá o pastor lembra a expulsão de Adão e Eva do paraíso, pelo anjo da espada flamejante, do castigo de tirar o sustento da terra com o suor do próprio rosto, de parir na dor... Lembra a triste realidade dos moradores daquela quadra, da rua do cochicho, do fuxico, dos deserdados do Canindé!
Paulo de Tarso
Enviado por Paulo de Tarso em 28/05/2006
Reeditado em 24/09/2006
Código do texto: T164519
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Sobre o autor
Paulo de Tarso
São Paulo - São Paulo - Brasil, 60 anos
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Paulo de Tarso