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                Um homem no lixão

            Sábado. Depois da missa das 20h30, fui a uma pizzaria. Face ao adiantado da hora, comer uma boa massa seria o mais aconselhável. Foi-se o tempo em que eu manuseava os cardápios dos restaurantes, sem antes consultar o meu relógio.

            As cantinas italianas ganharam um bom espaço, nas noites de Salvador. É verdade que algumas, de italianas, só têm o nome. Seus pizzaiolos nasceram por aqui mesmo; na Bahia, por exemplo.

            Também é verdade, que só eventualmente os baianos trocam a moqueca, o caruru e o vatapá por canelones, calzones e pizzas de diferentes sabores. 
           Mesmo que esses prazerosos manjares itálicos sejam servidos nadando no melhor azeite de oliva.  Na Bahia, o azeite é o de dendê.

           Mas os pratos italianos são muito bem-vindos a Salvador. Permitem que a gente, nas saidinhas noturnas, dispense o dendê. 
           Vale, porém, vez em quando, saborear o extraordinário vatapá ou a deliciosa moqueca de ostra do restaurante Iemanjá. Sem esquecer de abrir o jantar com uma casquinha de siri.

            Deixei a pizzaria, que fica na Rua Bahia, por volta da meia-noite.  Em uma das esquinas da Rua São Paulo, onde eu moro,  o lixo do dia, amontoado, aguardava o carro coletor que, infelizmente, só passa de madrugada, acordando as crianças e assustando os velhinhos.

           No lixão, debruçado sobre fétidos sacos pretos transbordantes, vi um cidadão brasileiro negro visivelmente derrotado. Lambia, sem dar bolas pra ninguém, restos de comida já em decomposição! Pensei: seria sua primeira refeição?

           Entrei em casa indignado com o que acabara de ver numa esquina do meu bairro, a Pituba; um bairro que hospeda, que abriga gente das classes média e alta.

           No meio da madrugada, Ivone, minha mulher, flagrou-me com os olhos fixos em uma imagem de São Francisco de Assis, recitando estes versos de Manuel Bandeira:

       "Vi ontem um bicho
        Na imundice do pátio
        Catando comida entre detritos.

        Quando achava alguma coisa,
        Não examinava nem cheirava;
        Engolia com voracidade.

        O bicho não era um cão,
        Não era um gato,
        Não era um rato.

        O bicho, meu Deus, era um HOMEM."

        E só depois de muito vaivém, consegui pegar no sono; que não foi, como de costume, dos mais tranquilos
...
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 28/05/2006
Reeditado em 13/09/2013
Código do texto: T164659
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Felipe Jucá
Salvador - Bahia - Brasil
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Felipe Jucá

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