Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Monólogo

Pois é. Quem nunca teve uma daquelas conversas entediantes nas quais nós nunca falamos? Acho que todos já tiveram essa experiência, que é no mínimo, curiosa.

Um exemplo: você está andando distraído pela rua, observando a bela e excepcional paisagem degradada e poluída da sua cidade. De repente, eis que um som diferenciado se propaga entre buzinas e gritos de Pague 4 e leve 3 (é pague 4 e leve 3 mesmo!): é seu nome. Você mais que depressa, numa curiosidade incontida e natural, seguida de um leve desespero, começa a procurar quem foi a amável pessoa que o gritou em uma das avenidas mais movimentadas da cidade.

Depois que seu pescoço está dormente, suas pernas já não agüentam mais andar em círculos e sua vista está embaçada de tantos poluentes lançados pelos carros, uma figura surge abanando sutilmente seus braços (uma leitoa balançaria do mesmo modo se te conhecesse. E se tivesse braços): sua amiga, uma pessoa que é provida de assuntos tão chatos que nem mesmo o pior dos professores de Física ou Geometria conseguiriam formular igual. Você começa a distinguir cabelos castanhos e algumas poucas centenas de espinhas varrendo toda a extensão oval de seu corpo. Você realmente a conhece.

Depois de feito o reconhecimento, ela corre em meio a dúzias de pessoas (e claro, como se não bastasse, ela tem que abrir os braços, já preparando um super-ultra abraço), e finalmente chega até você. Ela se joga de tal forma em cima do seu frágil corpo que você se desequilibra. Você sai cambaleando. Sua vista embaça novamente e a única coisa que você enxerga é um poste. A alternativa mais interessante é agarrar-se nele para tentar ter uma morte menos sofrida.

Por fim, você percebe que não morreu, e a primeira imagem que vê é a de sua amiga sorrindo calorosamente na sua frente. Um pensamento exclusivamente monossilábico sai de sua lista de pensamentos exclusivamente monossilábicos e se manifesta: não. Não. NÃO!

Por fim, ela diz:

_Oiiiiiii! Tudo bem?

Você se prepara para responder:

_S...
_Parece que sim néé? Que bom! Quanto tempo né? O que você tem feito?

Novamente você demonstra um sinal de movimento nas cordas vocais:

_N...
_Eu tenho só andado pelo mundo! Sabia que a Marcela vai casar? Aquela que era da nossa turma... - ela diz, num tom de satisfação.

Você agora suspeita seriamente de que o seu terrível diálogo de sempre evoluirá para um terrível monólogo. Tenta dar uma disfarçada, mas logo diz (ou pelo menos tenta dizer):

_Mmmm... - dessa vez você conseguiu terminar a frase. Mas será que ela ouviu seu "Mmmm"? Você nem abriu a boca para pronunciá-lo.  Talvez ela não tenha percebido, e tenha perdido a grande chance de te interromper novamente.

Ela continua, ainda animada:

_Puxa, você não mudou nada! Continua com aquela barriguinha de sempre hein?

Você começa a pensar cerca de 155 coisas diferentes para dizer para aquela amável pessoa. Você arrisca a dizer uma:

_E vo...
_ Hahaha! Brincadeirinha!

Agora você se sentiu desafiado. Você tem que falar uma frase completa. Pelo menos uma - você pensa. Você a observa um pouco e logo vê que terá que conquistar sua confiança. Começa lançando aquele sorriso forçado, mas que logo faz efeito. Ela diz:

_Nossa! Seus dentes amarelaram! Você andou fumando?

Nesse caso o efeito não foi totalmente como o esperado. Você se controla para não sair dando patadas e gritando grandes palavrões na cara de sua amiga. O que te acalma é a oportunidade que surgiu: você conseguirá falar. Você se prepara internamente, e logo solta:

_Fumando um pouco. Pelo menos não andei comendo, como você, não é?

Você não acredita. Você falou. Você FALOU! Seu corpo se arrepia todo, mas logo você percebe que sua frase foi em vão. Sua amiga estava olhando distraidamente para uma BMW que passava pela rua, no exato momento em que você pronunciava as dóceis palavras. Ela se vira, consulta seu relógio e diz:

_Nossa! Já está tarde! Conversamos demais não é?

Nessa hora você simplesmente aceita as circunstâncias. Foi outro monólogo improdutivo. Coisa corriqueira.  Mas você, um belo teimoso, ainda tenta:

_D...
_Então é isso. Adorei o papo! A gente se fala qualquer dia desses - ela diz, te cortando sutilmente.

Então você chuta uma pedrinha e se vira, entediado.
Lucas Peths
Enviado por Lucas Peths em 28/05/2006
Reeditado em 25/11/2007
Código do texto: T164956
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Citar o nome do autor, juntamente com o link/local em que a obra foi publicada originalmente). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Lucas Peths
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil, 26 anos
35 textos (16318 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 06/12/16 20:11)
Lucas Peths