Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

John Lennon e Bob Marley, e seus túmulos violados

Há alguns dias atrás, dirigindo meu carro, com o meu rádio sintonizado na Kiss FM (102,1, na grande São Paulo), rádio que toca apenas os clássicos do Rock, ouvi o locutor dizer que estava acontecendo naquele momento o show de Ivete Sangalo no Rock’n Rio Lisboa. Ele disse que não entendia porque um Rock’n Rio é feito em Lisboa. Muito menos, com um show de Ivete Sangalo. Ah, se ele souber que ela cantou “Imagine” do John Lennon.

Não tenho nada contra a Ivete Sangalo. Não gosto de suas músicas, jamais compraria seu CD, muito menos iria a seu show. Acho até que ela canta bem, e parece ser simpática. Não é bonita, como muitos acham, pessoas que confundem fama com beleza; dê uma volta de carro de 15 minutos em sua cidade, que verá alguma mulher mais bonita, em algum ponto de ônibus. Mas esse não é problema. O problema é: quem é que teve a brilhante idéia de chamá-la para um evento de Rock? Ela ta no direito dela, pois deve ter sido muito bem paga, inclusive. Mas chamar a Ivete para um evento de Rock, é o mesmo que chamar o Sepultura para se apresentar num rodeio. Mais respeito com o Rock!!! Daqui a pouco vão convidar Sandy e Jr para se apresentar no Rock’n Rio. Ah !!! Me esqueci. Eles tocaram no último.

Sandy e Jr. Algumas pessoas me perguntam porque não gosto. 3 motivos (dentre milhões). 1 – não agüento a pose de boa moça de Sandy (dizem que as que se fazem de santas, são as mais perversas). 2 – não entendo a função do Junior na banda. Acho que ta ali de enfeite (de muito mau gosto, por sinal), porque não canta nada. 3 – É possível gravar um CD inteiro, com as versões que a dupla fez das músicas de Celine Dion; fazer uma versão de alguma música internacional pode até ser legal; agora, fazer dezenas de versões, é uma falta de criatividade imensa.

Estes dias fui à casa de minha irmã jogar baralho. Ela colocou um CD de alguma coisa chamada “Jeito Muleque”. Um sambinha de 5ª categoria. Pode parecer mentira, mas eu gosto de samba. Zeca Pagodinho, Bete Carvalho e Bezerra da Silva, são muito respeitados por quase todos roqueiros. Mas não foi a 5ª categoria que me levou a escrever este parágrafo. Uma das músicas que os infelizes tocaram, foi “Marvin”, dos Titãs. De repente, ouço “I wanna love you” do Bob Marley. Minha sobrinha disse que um tal de “Rapazote”, axézeiro, estava acompanhando-o. Ai já é demais. Promiscuidade total. Bob, assim como John, deve estar se mexendo no caixão. Pensando bem, eles devem ter se levantado, depois de tanta humilhação. Vou procurá-los para pedir um autógrafo.

Uma vez, um amigo me perguntou porque eu gostava de Rock, e quais eram as diferenças do Rock, em relação aos outros estilos. Quanto à diferença, alguns diriam que são as drogas. Eu discordo. Acho que o uso de drogas independe do estilo de música que a pessoa gosta. Eu não uso drogas, pois não ligo a TV de domingo. Vocês acham que artistas, por exemplo, não usam drogas? O Marcelo Anthony da Globo usa. E na minha opinião o problema é dele, e ninguém tem nada a ver com isso. Não me entendam errado, não faço apologia às drogas, sou contra o uso de qualquer entorpecente. Completando, nos outros estilos, acho que o uso é apenas menos explícito. Como o racismo no Brasil; implícito. Quanto ao gosto, disse que não gostava apenas de Rock, que gostava, por exemplo, de MPB (apesar de achar que o “P” não tem sentido nesta sigla; popular é “eguinha pocotó”...aghhh). Respondi-lhe que o Rock é diferente dos outros estilos. Não se trata de técnica de tocar, nada disso. Há bandas de Rock que tocam pessimamente, mas que são ótimas. Uma das diferenças, é o lastro. Eu gosto de muitos músicas de décadas passadas; o “Rebelde”, daqui a 6 meses, será esquecido como aconteceu com o “Menudos” e tantos outros. Aliás, este ano fui ao show do Rolling Stones no Rio. Um amigo me perguntou se eu não havia ficado com medo, pois ele leu no jornal que algumas pessoas foram esfaqueadas (o jornalismo sensacionalista e barato de sempre). Respondi-lhe: “Com certeza, morreram mais pessoas num show do Rebelde, em um shopping de São Paulo, com 10 mil pessoas, do que nesse, com mais de um milhão de pessoas”. Disse ao outro amigo, que fui no show do Pearl Jam o ano passado, e que as músicas que mais gostei foram 2 “singles”, pois não imaginei que elas seriam tocadas. Ele me perguntou o que era um single. Respondi-lhe que eram músicas que não estavam em nenhum CD, e que poucas pessoas conheciam. Ele continuou sem entender.
 
Uma banda de Rock que se preze, jamais iria a um programa do tipo “Faustão”. Primeiro que a banda não se sujeitaria a fazer “play-back”. Segundo, que ao menor sinal de interrupção, como é de costume pelo apresentador, a banda pararia de tocar, e xingaria o gordo repugnante de todos os termos de baixo calão existentes no planeta. No filme do “Doors”, tem uma parte em que eles vão se apresentar num programa de auditório esdrúxulo, do tipo do Faustão. Um dos produtores pede para que ele retire a palavra “crazy”, da música “light my fire”, por entender que a palavra louco não pode ser pronunciada em um programa “de família” (família do outros, não a minha). O guitarrista, e compositor da música, disse a Jim (vocalista) que não se importava, e que era só uma palavra mesmo. Jim respondeu: “Mude seu nome. É só uma palavra”. Na hora da apresentação, Jim olhou para as câmeras, e gritou, com toda a intensidade que suas cordas vocais pudessem permitir: “CRAZY”. Os produtores ficaram estarrecidos, e disseram que jamais convidariam a banda novamente a apresentar-se no programa. Ainda bem, a banda deve ter pensado. Caro amigo, não sei lhe explicar o que é exatamente o Rock’n Roll. Poderia dizer-lhe que é beleza, sonoridade, energia, atitude, rebeldia, barulho, sei lá. Digamos, que é um pouco de cada, misturado, e colocado do avesso. Espero que tenha conseguido transmitir um pouco do significado, para que no mínimo, o Bob e o John voltem a suas tumbas e descansem tranqüilos. Pelo menos, até o próximo calhorda lhes importunar.
 
Ivan Sanches
ilsanches@gmail.com
Ivan Sanches
Enviado por Ivan Sanches em 29/05/2006
Reeditado em 29/05/2006
Código do texto: T165075

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, criar obras derivadas, desde que seja dado crédito ao autor original e as obras derivadas sejam compartilhadas pela mesma licença. Você não pode fazer uso comercial desta obra.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Ivan Sanches
Santo André - São Paulo - Brasil, 34 anos
141 textos (12228 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 20:00)
Ivan Sanches