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Minha rua

Estou cá embaixo, no começo da minha rua. Ela é de terra batida, aqui e ali as “picovas”, buraquinhos do nosso jogo de bolinhas, lá e acolá o estrume das boiadas que sempre sobem ou descem minha rua!
Está garoando, sinto o cheiro bom de terra molhada, o aroma  do verde abundante dos quintais da minha rua!
Ouço uma sineta. É da carroça da padaria, um baú cheio de pães fresquinhos que vão sendo colocados nas janelas das casas da minha rua, junto com o leite de garrafa, das primeiras ordenhas, o cavalo sobe mansamente e nos seus passos a sineta avisa que o pão nosso de cada dia nos foi dado...
Música no ar, da sineta do padeiro e das emissoras de rádio, com os matutinos sertanejos, a minha rua se espreguiça e desperta.
Um grupo de pessoas caminha pela minha rua, portando facão de cortar cana, enxadas, as mulheres com lenço a proteger os cabelos, chapéus de aba larga, proteção contra o sol. Que sol! Escaldante, que grassa logo cedo nos campos da minha terra. Gente que literalmente garante o sustento com o suor do rosto, são bóias-frias, pingentes sociais, deserdados... Criança não percebe essas coisas...
Às vezes as meninas da minha rua trocam as bonecas pela amarelinha, ficam lá, pulando aqueles quadros, coisa de menina... As mais mocinhas já esqueceram da amarelinha e das bonecas, ficam amuadas, tristes, suspirando, sonhando... Os meninos também, não querem mais jogar bolinha, pião, só ficam rodeando as mais mocinhas!
Aquela casa cheia de hortênsias no jardim, é de um casal que passa o dia conversando, ela costurando camisas, pregando botões, ele passando calças, cortando tecidos e tudo parece maravilhosamente bom, boa vida...
Agora chego a bom lugar. Esta casa de janelas pra rua, paredes creme, janelas em ocre, Ah! É a minha casa, do lado um coqueiro e um limoeiro rosa lotado de frutos. Nos fundos um abacateiro com cordas de um balanço, ameixeiras, laranjeiras, mexeriqueiras, pitangueiras e a cerca fechada em parte por figos da Índia. As lebres do meu pai e finalmente eu mesmo, descalço, vestido com um calção, queimado pelo sol.
 Boas lembranças, outras nem tanto. Lá estão os irmãos que ainda tenho, e não são poucos!
Naquela casa soube que minha irmã partira, voltou ao Criador. Não a vi descer à mansão dos mortos. Meu pai também se foi...
É como uma música que agora me veio à lembrança: naquela sala ele contava estória que hoje na memória ainda sei de cor.
Na minha inocência de criança troquei de mal com Deus por me levar meu pai. Naquela mesa está faltando ele e a saudade dele está doendo em mim! Sobreviveremos...
Esta outra casa é de um brincalhão que vive a nos enganar e a outros incautos despreparados. Vende saracuras de qualquer espécie. Há anos que ele tem sempre oitenta e duas aves à venda e mais quatro ainda chocando. Na verdade as aves nunca existiram!
Do outro lado um alto falante estrategicamente colocado para invadir nossas casas sempre a mesma música a tocar...
Agora um longo e alto muro a subir a rua, atrás dele um pomar que me enche de desejos inalcançáveis. Pertence a uma família rica, a mais rica da rua, pelo menos. Como um cão de guarda, uma velha cuida do pomar. Moleque não presta!
 Ela conta com um porte físico muito próximo a um canário belga, magérrima, cabelos brancos em coque, óculos com aros de tartaruga caídos sobre um adunco nariz e pernas tão finas que pareciam sabiá, um alvo perfeito ao estilingue do meu irmão, que faz artes que só ele pode contar. Uma coisa boa é que a velha tem uma televisão “Impire” e me deixa assistir programas no terraço, se esfria o tempo ela me deixa a ver navios... Ela coloca um celofane de várias cores na tela e vejo tudo colorido! Será que ainda vão fazer TV colorida? Também construí um brinquedo que obedece aos princípios básicos do periscópio e com isto vivo a espiar o pomar da quase boa velhinha!
As máquinas da serraria a desdobrar imensas toras, este barulho o dia todo, já tem muito tempo fazem móveis finos lá, brindam o nascimento fazendo berços e também fazem caixões, a propósito também é propriedade do canário belga com pernas de sabiá, todos os seus filhos trabalham lá!
Ao lado da serraria um velhinho no terraço. Ele deve ter ficado surdo porque não se importa com o som que chega de lá. Este velho é um grande sovina, se diverte partindo fósforos para aproveitar melhor os centavos pagos pela caixa.
A minha rua, como muitas, tem gente de toda espécie.
Tem o padeiro lá da padaria, tem o pedreiro que constrói.
Tem o lavador de carros que tranquilamente cria a família limpando a sujeira dos outros.
Tem a enfermeira que cuida dos doentes lá do hospital e não pode e não sabe como ajudar seu irmão doente mental.
Tem meu professor de desenho no ginásio, que também é marceneiro na serraria da velha. Carrega os sapatos de sua mãe que insiste em entrar descalça na igreja.
Tem também o zelador do cemitério. Ou o “coveiro”.
Tem a mulher do tapeceiro que o trai com o boiadeiro.
E tem o Cruzeiro. Marca o caminho do cemitério e fica no fim da minha rua. Toda cidade que se preze tem obrigação de construir um! Como braços abertos de Cristo a envolver a cidade.
Mas acho mesmo que Cristo não se importa conosco.
Seu Cruzeiro fica de costas à nossa rua...

Paulo de Tarso
Enviado por Paulo de Tarso em 29/05/2006
Reeditado em 07/06/2006
Código do texto: T165576
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Sobre o autor
Paulo de Tarso
São Paulo - São Paulo - Brasil, 60 anos
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Paulo de Tarso