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JACAMIM(1)

Zé Pereira, negro, lábios grossos, alto, forte e tabacudo, nasceu para o serviço pesado. Seu cérebro não lhe permitiu alçar vôo nos estudos e, por isso, abandonou a escola. Depois de tentar ganhar a vida como caraxué(2), pedreiro, estivador e cavador de valas, entregou os pontos e aventurou-se pelos garimpos.
Zé Pereira adaptou-se à nova vida: quando bamburrado torrava o dinheiro em farras e puteiros; quando brefado(3), mendigava junto aos amigos.
Numa das visitas à cidade, Zé Pereira capitulou aos apelos do coração e amancebou-se com Maria-do-balaio-grande. As incursões do companheiro pelas zonas auríferas deixavam aquela cabocla brejeira perdida de amor, saudade e tesão:  Zé Pereira, às vezes, embrenhava-se na mata e sumia por muitos meses.
Certa feita, voltando de uma dessas aventuras, Zé recebeu com orgulho a notícia de que seria pai. Reformou o casebre, comprou móveis e enxoval e abriu o bolso e a carteira em mimos para com Maria-do-balaio-grande. Obrigado a voltar ao grotão, chamou Pedro Cri-cri, seu vizinho, entregou-lhe um pacote de dinheiro e recomendou-lhe:
- Parente, quero que tu tome conta da minha muié e do bucho que carrega o meu filho. Aqui tem 3.000 conto. Num deixa faltar nada lá em casa. Se precisar de mais algum, fala com o Pedro Paletó, que ele resolve. – Dito isso, sumiu.
O tempo passou e Zigo, ex-colega de escola de nosso herói, fazia compras na feira  quando sentiu uma mão pesada nas costas:
- Zigão...! Quanto tempo...?
- Ei, Zé...!?! Por onde tu andas, rapaz? – Respondeu Zigo, depois de levar algum tempo para lembrar do colega de escola.
- Garimpando, parente...  – E direto - Preciso da tua ajuda e da tua opinião... Quero que tu me dê uma carona pra levar meu rancho pra casa e quero que tu conheça minha companheira e meu menino que nasceu semana passada. Eu vivo afastado de casa e, como tu tem mais experiência do que eu nesse negócio, quero que tu confirme se Zezim é meu filho mesmo. Sei lá..., eu ando meio encafifado com umas coisa...
Zigo tentou, mas não conseguiu resistir ao convite do garimpeiro. Lá se foram os dois. Chegando ao casebre, passaram por Maria-do-balaio-grande que, emburrada, atrás de  uma pilha de fraldas e com o ferro de engomar na mão, não lhes dirigiu um olhar sequer.
Ainda na sala, Zigo viu quando um jovem branco, loiro e de olhos verdes, passou por Maria e deu-lhe leve tapinha na bunda; esta esboçou um sorriso maroto e cúmplice. Zigo estranhou aquelas atitudes, mas calado estava e calado ficou. Gostaria de não ter visto a cena. Puxando o reconhecedor-de-meninos pelo braço, Zé Pereira acercou-se do berço onde chorava um bebezinho branco e de olhos agatanhados. Zé perguntou:
- Zigo, esse menino se parece com o pai?
Relembrando o quadro presenciado há pouco, Zigo respondeu laconicamente:
- É..., Zé..., esse menino é a cara do pai...
- Zigo, tu tá falando sério mesmo?
- Claro, Zé! Pelo que eu vi, esse menino tem a cara do pai dele!
- Mas, Zigo..., num tou entendendo... Esse menino é branco e tem o zói mei puxado pro verde...
Zigo atinou e, com medo do que uma resposta sincera pudesse provocar, desconversou:
- Zé... É melhor a gente esperar esse menino completar 28 dias... Desinchado, pode ser que ele mude... Tem esse negócio de influência da lua... – E, de repente - Me diz uma coisa, Zé: quem é esse cara que  entrou há pouco pra tomar água?
- Ah, Aquele é Pedro Cri-cri...: meu amigão e vizinho de muitas datas; ele vai ser o padrinho de Zezim...
Zigo, dirigiu-se ao carro, entrou, fechou a porta e, iniciando a ignição, falou penosamente para o ex-colega de escola:
- É, Zé..., esse teu filho tem mesmo a cara do pai...

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(1) Jacamim – um tipo de pássaro. Diz-se que o jacamim apodera-se dos filhos de outras aves para criá-las; (2) Caraxué – moleque de recados em puteiros; (3) Brefado – o mesmo que liso, sem dinheiro, entre os garimpeiros de Roraima.

e-mail: zepinheiro1@ibest.com.br
Aroldo Pinheiro
Enviado por Aroldo Pinheiro em 30/05/2006
Código do texto: T165708
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Sobre o autor
Aroldo Pinheiro
Boa Vista - Roraima - Brasil, 62 anos
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Aroldo Pinheiro