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TEMPOS DIFÍCEIS

Tempos difíceis. Tempos bicudos. O desemprego é uma realidade e ultrapassa os 15%. Ele, 54 anos, faz parte destas estatísticas. A metalúrgica onde trabalhava fechou as portas e jogou 237 pessoas na rua. Lá se vão onze longos meses sem um salário e já não lhe restava um trocado no bolso: desapareceram os trocados do FGTS e as migalhas do Seguro Desemprego. Não sabia mais o que fazer. Vendera rádio, televisor, fogão e geladeira. O lindo relógio, herança de seu pai, foi deixado no prego. Até o cachorro, seu companheiro de muitos anos, ele se viu obrigado a abandonar sob muita pena e sofrimento. Preocupou-se, antes, em deixá-lo em vizinhança de classe média, na esperança de que algum coração bondoso simpatizasse com seu "caninus vulgaris" e lhe desse guarida.
Seu estômago – ou o que restava dele – doía: fome. Muita fome. Seu cinturão já ostentava 13 novos furos e dava quase duas voltas naquela cintura pelancuda.
Não. Não podia mendigar: seria vergonhoso e humilhante.
Passava pelos bares e mercearias sentindo seu olfato invadido pelos frangos assados nas máquinas elétricas. Os gordurosos pastéis, quibes, rissoles, coxinhas e croquetes que ocupavam as estufas levavam-no ao delírio.
“Meu Deus, que fome!” Ele já via estrelinhas cadentes sob pleno sol de meio dia. Morria de medo de apagar ali na rua. Desde que acordara já tinha tomado dez copos com água para forrar o estômago e enganar o vazio nas tripas.
Ao passar pelo barzinho onde outrora tomara cervejas acompanhadas de rabos-de-galo, único luxo a que se permitia quando ainda empregado, pensou entrar e pedir algo para comer; talvez o português se sensibilizasse com seu estado e lhe oferecesse algo: restos de comida que fossem. Precisava comer. “Ai, meu Deus, que fome!”
Subiu o batente, deu dois passos dentro do estabelecimento, olhou à sua volta e retrocedeu. Sentiu vergonha de pedir; vergonha maior se recebesse um não. Andou alguns passos a esmo e parou na esquina. Pensou em se jogar debaixo de um ônibus que, em alta velocidade, cruzou-lhe a frente. Desistiu. E se não morresse? Se não morresse aumentaria seu sofrimento nos corredores dos hospitais públicos. “Meu Deus, que fome!”
De repente, sem raciocinar viu-se dentro daquele boteco. Encostou-se no balcão e ordenou alto e forte:
- Seu Manel, me dê uma dose de conhaque!
O português pegou um copo, apanhou a garrafa na prateleira e, quando ia servi-lo, ouviu:
- Peraí, seu Manel: quanto é a dose de conhaque?
Seu Manoel reenroscou a tampa na garrafa e respondeu sem encarar o solicitante:
- Três e cinqüenta...
- E quanto é um sanduíche de “mortandela”?
- Três e cinqüenta...
- Então, por favor, troque o conhaque por um sanduíche de “mortandela”.
O português devolveu o copo para a pia, recolocou a garrafa na prateleira, com o pano sujo que trazia ao ombro limpou o suor do rosto, enxugou as mãos, pegou um pãozinho francês amanhecido, passou-lhe margarina, introduziu-lhe duas fatias finas de mortadela, espetou-lhe um palito, envolveu-o com um guardanapo de papel e o colocou na frente do cliente. Este recebeu a encomenda, agradeceu e, feliz, dirigiu-se à porta de saída. O português então gritou:
- Ôh, gajo! Esqueceste de pagar o sanduíche...!?
Ele, que já tinha tirado uma naco da sua refeição, virou-se para o portuga e, com a boca cheia, falou:
- Mas seu Manoel, eu troquei o sanduba por uma dose de conhaque...
O português, desconfiado, coçou a cabeça e argumentou:
- Ôh, pá...! E quem vai pagar o conhaque?
- Sei lá, seu Manel... Eu, por acaso, tomei conhaque?"
 
e-mail: zepinheiro1@ibest.com.br
Aroldo Pinheiro
Enviado por Aroldo Pinheiro em 31/05/2006
Código do texto: T166371
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Sobre o autor
Aroldo Pinheiro
Boa Vista - Roraima - Brasil, 62 anos
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Aroldo Pinheiro